Inflação é a mais alta desde 2003

Inflação é a mais alta desde 2003

» PAULO SILVA PINTO
postado em 24/02/2016 00:00
 (foto: Hugo Gonçalves/CB/D.A Press - 30/10/15)
(foto: Hugo Gonçalves/CB/D.A Press - 30/10/15)


Diante de um Banco Central (BC) acuado pelo governo, que, por sua vez, não consegue estancar a sangria dos gastos públicos, a inflação castiga cada vez mais os brasileiros. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) fechou em 1,42% em fevereiro, bem acima da expectativa média de mercado, de 1,32%, e do resultado de janeiro (0,92%). Pior: nenhum analista ousou imaginar que o número viria tão alto ; o teto das estimativas estava em 1,41%.

Prévia da inflação oficial do país, o IPCA-15, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ficou no patamar mais alto desde 2003. O acumulado em 12 meses está em 10,84%, também acima do registrado em janeiro.

Para o economista Leonardo Costa, da Rosenberg Associados, o que mais chamou a atenção foi o grupo de alimentação, que liderou a alta, passando de 2,26% em janeiro para 2,37% em fevereiro. Hortaliças e verduras subiram 8,66%. ;Isso aconteceu sobretudo como resultado de fatores climáticos, com seca maior do que a esperada no Nordeste e excesso de chuvas no Sudeste, efeitos do fenômeno El Niño;, explicou.

;Alimentação, transportes e educação explicam três quartos da inflação mensal;, notou o economista Elson Teles, do Itaú. A energia elétrica veio com queda de 0,1%, por conta da redução da bandeira tarifária. As passagens aéreas também ficaram mais baratas, em 15,8%.

O economista Mario Mesquita, do Banco Brasil Plural, destacou que a elevação do dólar frente ao real e os aumentos de impostos estão puxando os preços para cima. ;Além disso, a deterioração do quadro fiscal eleva as expectativas de inflação para o ano;, explicou. Uma demonstração do efeito do câmbio é que os produtos industriais, que vêm do exterior ou têm componentes importados, vieram 1% mais caros, o dobro do que apontavam as estimativas.

Das 11 regiões pesquisadas pelo IBGE, Brasília teve a inflação mais baixa: 1,01%. Em janeiro, o IPCA-15 já havia ficado abaixo da média, em 0,68%. O acumulado em 12 meses está em 10,25% na capital federal. A inflação mais alta de fevereiro foi registrada em Salvador: 2,26%.

Os aumentos de preços foram bastante espalhados por diversos segmentos, o que se reflete no índice de difusão, que subiu de 75,1% para 77,3%. Para Costa, as razões disso são o câmbio e a indexação da economia, que faz com que os choques de preços sejam transmitidos para vários setores. O início de ano é especialmente pressionado por transportes e educação. ;A dinâmica da inflação permanece desafiadora;, afirmou Mesquita, do Brasil Plural.

O acumulado do IPCA cheio de fevereiro deverá vir mais baixo do que o de janeiro, segundo Costa. ;Isso ocorrerá porque vão sair da conta os grandes reajustes de combustíveis e energia elétrica do início do ano passado;, explicou. O banco Itaú prevê 10,4% no acumulado do mês fechado. ;Alimentação, transportes e educação virão com taxas bem menores;, estimou o economista do banco Elson Teles.

A estimativa da Rosenberg é que o IPCA feche o ano em 8%, abaixo dos 10,67% registrados no ano passado, porém acima do teto de 6,5% estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A Brasil Plural estima IPCA em 8,2% no ano.

Costa acha que poderá haver surpresas, porém, ;a depender da política monetária dos Estados Unidos e do comportamento da economia chinesa;. A expectativa é de alta moderada da taxa de juros nos Estados Unidos, dos atuais 0,25% ao ano para algo em torno de 0,75%. ;Se for mais do que isso, haverá desvalorização mais forte do real, com maior impacto nos reajustes de preços aqui;, explicou o economista. No caso da China, o yuan, moeda do país, está muito valorizado. Caso a cotação se reduza frente ao dólar, poderá arrastar junto outras moedas emergentes, incluindo o real.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do BC vai se reunir na próxima semana. Economistas duvidam que se decida elevar a Selic, atualmente em 14,25%, por conta da pressão fiscal que isso exerceria e também devido à pressão política para segurar a taxa, aliviando a recessão.



  • Choque no bolso (em %)
    Veja como a carestia não dá trégua. Em todas as capitais, o IPCA-15 ficou acima de 1% em fevereiro

    Cidades Janeiro Fevereiro

    Salvador 0,97 2,26
    Recife 0,91 1,82
    Rio de Janeiro 1,14 1,62
    Belém 0,97 1,45
    Porto Alegre 1,02 1,45
    Fortaleza 1,20 1,41
    Belo Horizonte 0,79 1,32
    São Paulo 0,95 1,24
    Goiânia 0,74 1,21
    Curitiba 0,53 1,14
    Brasília 0,68 1,01
    Brasil 0,92 1,42

    Fonte: IBGE

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