O dilema de Hamlet

O dilema de Hamlet

» JORGE FONTOURA Doutor em direito, é analista de questões externas e de política internacional

postado em 24/02/2016 00:00



Os eleitores do Reino Unido decidem em junho próximo, em referendum fadado a marcar tanto o futuro do país quanto o do próprio continente, se continuam vinculados ao Tratado de Roma, ou se saem da União Europeia. Repto da geografia e da história, o pertencimento britânico à Europa sempre foi questão a ponderar, nos dois lados do Canal da Mancha, camuflada na dubiedade elegante da expressão ;Europa continental;. Agora, a definição poderá vir com a contundência de uma fratura exposta, na escolha que incidirá gravemente na economia e na segurança comum.

Com David Cameron engajado na campanha pela permanência, o que tem feito de forma resoluta, como grande estadista à la Churchill, sem temer o lado mesquinho da pequena política, o primeiro-ministro vem conseguindo o impossível. Inclusive impor à Alemanha e à França toda uma agenda de concessões generosas, o que lhe fortalece sobremaneira. O pano de fundo dos favores de Bruxelas a Londres reporta questão crucial na governança comunitária: a existência de países protagônicos e de países baixo clero, o que sempre foi de difícil admissão pelo establishment eurocrata, com investimentos generosos a funcionar como bálsamo para orgulhos nacionais feridos.

Com o partido trabalhista e seu expoente da hora francamente contra a permanência, a alardear desvantagens econômicas para os britânicos, com perda de empregos e de salários, somadas às decisões supranacionais que enfraquecem o Parlamento, o Brexit possui outro apelo formidável. Trata-se do drama dos emigrantes que assola o continente, a fazer o nacionalismo refluir com toda a sua força, nem sempre de virtudes sinceras. Se Samuel Johnson tinha razão ao afirmar que o patriotismo é último refúgio dos patifes, hoje, na Europa, a par disso, diante da chegada de marés de refugiados, chega a ser irresistível o argumento de que fechar fronteiras e expulsar extracomunitários é forma de salvação nacional e de prevenção do terrorismo. Com isso, inclusive setores importantes do partido conservador de Camerun se unem a trabalhistas, para defender a opção drástica da saída pura e simples.

Embora o Reino Unido tenha sido sempre país peculiar da União Europeia, fora da Zona do Euro e alheio à Europa de fronteiras comuns do espaço de Schengen, alheia a obrigações absolutas de livre circulação de pessoas, agora as pressões imigratórias são mais drásticas. Não só pelo drama da Síria, como pelo aluvião de europeus do leste que acorrem ao Reino Unido, em busca das benesses de seu sistema social e de suas estáveis libras. Se isso é intolerável em face da crise econômica e do encolhimento do mercado de trabalho, é fácil apontar para a União Europa e seu discurso de tolerância e de direitos humanos, nomeando-a responsável por perdas e perigos que aturdem a todos.

Com estatísticas voláteis, em cenário que valoriza de forma inédita o referendum, a expectativa é de que nos próximos meses a questão ganhe importância de primeira grandeza, prevendo-se o mais concorrido dos pleitos, apesar do caráter facultativo do voto. Ao tempo em que todos os esforços parecem ser feitos pelos governantes europeus para não perderem seu membro caprichoso, também verificam-se vozes que apregoam ser a saída britânica benéfica à política e ao comércio internacional, liberando o Reino Unido da dependência de Bruxelas, sem as amarras protecionistas e a rígida regulação comunitária.

De toda a forma, o ano será decisivo para o devenir da Europa de instituições comuns. Tanto pelo seu contingente fortalecimento, com a permanência dos britânicos, quanto pela opção radical da saída, até pelo caráter simbólico do que poderia suscitar. Afinal, desde o Tratado de Paris, em 1951, seria o primeiro membro a retirar-se do bloco, a emular forças eurocéticas em todos os países, curiosamente presentes nos discursos antieuropeus tanto dos partidos de extrema esquerda como de extrema direita. Por certo, são todos esses preocupantes ingredientes que levam Cameron à ofensiva para, sem nenhuma fleuma, afirmar que os britânicos, fadados a realizar uma das mais importantes e consequentes escolhas de sua história, não devem dar um salto no escuro e decidir de forma pragmática: ;Eu não amo Bruxelas, amo o Reino Unido, que, a permanecer na União Europeia, será mais rico e mais seguro;.

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