A Idade do Plástico

A Idade do Plástico

Pesquisadores britânicos defendem que o período geológico atual é caracterizado, especialmente, pelo intenso descarte de resíduos do derivado do petróleo na natureza. O fenômeno afeta o meio ambiente e ameaça, inclusive, espécies marinhas

postado em 24/02/2016 00:00

Nos livros de história, fotos de fósseis de criaturas pré-históricas encrustadas em rochas ilustram um passado distante. Esqueletos e órgãos de animais lançam luz sobre como era o mundo milhares de anos atrás. E os dias de hoje, que tipo de fósseis eles deixarão para serem desenterrados no futuro? Segundo pesquisadores da Universidade de Leicéster, no Reino Unido, serão restos de lixo plástico.

Em estudo publicado na revista especializada Anthropocene ; o nome da publicação vem da proposta de que a interferência do homem sobre o planeta inaugurou um novo período geológico: o Antropoceno ;, cientistas da instituição britânica defendem que a Terra entrou na ;Idade do Plástico;, caracterizada pela produção gigantesca de materiais sintéticos duradouros.

A difícil degradação desses materiais, afirmam, tem como resultado a deposição de enormes quantidades de plástico na superfície do planeta e leitos dos oceanos. ;Uma vez enterrado, sendo tão resistente, o plástico tem uma boa chance de ser fossilizado e deixar um sinal material para muitos milhões de anos no futuro;, esclarece Jan Zalasiewicz, professor de paleobiologia do Departamento de Geologia de Leicéster.

De fato, o material, hoje, é onipresente. Eletrodomésticos, embalagens, roupas, cosméticos, pneus e peças de construção, entre outra infinidade de artigos, são produzidos com plástico, que, apesar de durável, é descartado diariamente a toneladas. Não existe local intocado por esse derivado do petróleo. Do topo de montanhas aos confins do Oceano Pacífico, é possível encontrar uma garrafa, sacola ou copo.

Professor de geologia da Universidade de Brasília (UnB), Roberto Ventura Santos concorda com o colega britânico. ;O plástico depositado em sedimentos ao longo das décadas servirá como marcador temporal para identificar nossa época no futuro;, analisa o especialista, que não participou do estudo. Ele, contudo, lembra que esse não deverá ser o único resíduo deixado como legado destes tempos. ;Existem outros marcadores que podem ser identificados como fruto da ação humana sobre a Terra e que servem de argumento para o termo Antropoceno, como a grande quantidade de CO2 e metais pesados liberados após a Revolução Industrial;, cita.

Perigo micro

A geração de plástico pelo homem é tão grande que, por volta de 2050, os oceanos abrigarão uma quantidade maior do material do que de peixes, alertou recentemente um estudo realizado pela Fundação Ellen MacArthur, em parceria com a Consultoria McKinsey. E o risco representado pelo produto não está apenas nos resíduos visíveis. ;Estamos acostumados a viver entre lixo plástico visível. Mas há também um conjunto invisível de microesferas plásticas que saem de cosméticos, pasta de dentes, fibras artificiais e roupas que se acumula em leitos marítimos e lacustres;, detalha Colin Waters, coautor do estudo e pesquisador do British Geological Survey.

Além disso, peças maiores que se degradam com o tempo não somem por completo, mesmo que sejam reduzidas a minúsculas partículas. ;Esses pequenos grãos têm vida eterna e podem influenciar muito o meio ambiente. Por exemplo, eles absorvem pouco o calor do sol e, ao se acumular nas praias, mudam a temperatura da areia. Animais como as tartarugas, que têm o sexo dos filhotes determinado por essa temperatura, acabam tendo uma população muito maior de indivíduos de um sexo, o que dificulta a preservação da espécie;, alerta Juliana Assunção Ivar do Sul, oceanóloga brasileira que colaborou com a pesquisa.

Os resíduos sintéticos também carregam contaminantes vindos de fábricas, lixões e esgotos. ;Quando esses poluentes, carregados principalmente pelos microplásticos, chegam ao mar, eles são ingeridos por peixes, plânctons e corais. Assim, esses químicos envenenam a biota marinha;, acrescenta Ivar do Sul, que integra o Anthropocene Working Group.

Soluções

Se a ameaça é tão grande, como resolver o problema? ;O plástico que já existe é quase impossível de ser removido do meio ambiente. Teríamos que peneirar toda a areia do mar. E acabar com o consumo de plástico é inviável. O que podemos fazer é frear o consumo desnecessário do material. Os descartáveis, como copos e sacolas, são a maior proporção de plásticos produzidos. Devemos parar com o consumo desses produtos, dar preferência a alternativas duráveis ou mais sustentáveis, como vidro ou papel;, aconselha a pesquisadora.

;Hoje, 80% dos resíduos jogados no mar têm origem na terra. Isso mostra que o problema tem origem no modo de descarte. O plástico no oceano vem da má gestão de resíduos sólidos;, argumenta Miguel Bahiense, presidente da Plastivida, entidade que representa a indústria do plástico. Para Ivar do Sul, as medidas de descarte atuais apresentam muitas falhas. ;A Política Nacional de Resíduos Sólidos é muito recente, de 2010. Essa questão é discutida em países desenvolvidos há muito tempo, mas, mesmo lá, possui muitas falhas, porque não trata sobre poluição marítima, por exemplo;, lamenta.

Enquanto a destinação correta não se torna realidade, a produção só aumenta. De acordo com a PlasticEurope, equivalente europeu da Plastivida, em 2013 foram geradas 78 milhões de toneladas de plástico no mundo. Desse total, 40% foram descartado em aterros sanitários, e 32%, na natureza. Em 2014, a produção foi muito maior: 311 milhões de toneladas ; 2,7% deles fabricados no Brasil.

Diante dessa realidade, Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu, ONG que promove o consumo consciente, aposta na difusão de informações e novas práticas. ;O trabalhador precisa saber mais o impacto do seu consumo. O plástico é material moldável, leve, higiênico, barato e durável. Ele se torna um vilão quando existe um descarte incorreto e uso excessivo. As sacolas plásticas são um exemplo de uso errado. Precisamos de consumo consciente desse material;, acredita.



Oceanos sobem de forma rápida

Estudo publicado ontem na revista Pnas alerta que o nível dos oceanos aumentou mais rapidamente desde o século passado do que durante os últimos três milênios, devido à mudança climática. Entre 1900 e 2000, a altura dos mares subiu cerca de 14cm como consequência do degelo das geleiras, especialmente as do Ártico. De acordo com a análise, o nível do oceano ;muito provavelmente; aumentará entre 51cm e 1,3m durante este século ;se o mundo continuar dependendo tanto de combustíveis fósseis;.


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