IR 2016

IR 2016

Número de contribuintes que entregaram declaração no primeiro dia subiu quatro vezes ante 2015. Prestação de contas atingiu quase 1% do total estimado pela Receita. Especialistas acreditam que o alto endividamento das famílias é responsável pelo fato

» AZELMA RODRIGUES » MARIANA AREIAS ESPECIAL PARA O CORREIO
postado em 02/03/2016 00:00
 (foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press)


No primeiro dia da entrega da declaração do Imposto de Renda 2016, a Receita Federal recebeu um volume expressivo de documentos. Cerca de 246,4 mil contribuintes correram para prestar contas. O volume foi quase quatro vezes os 86 mil que declararam nas primeiras horas do prazo, em 2015, e cerca de 1% das 28,5 milhões de declarações esperadas pelo Fisco este ano.

Para especialistas, a pressa tem a ver com o grave cenário de crise econômico-financeira que abate o país, em que o contribuinte é o mais penalizado e busca, como pode, alternativas para se livrar do endividamento.

Já nos primeiros minutos do prazo ; que vai até as 23h59 de 29 de abril ;, os contribuintes encontraram o sistema de recebimento do IR travado. Houve uma avalanche de demandas, contornada pela Receita e pelo Serpro, e, até as 11h, cerca de 120,4 mil tinham sido entregues.

Profissionais especializados em IR argumentam que vem aumentando o número de famílias com dívidas mais caras, como cheque especial e cartão de crédito, cujas taxas de juros são as mais altas do mundo, ao redor dos 300% e 450% anuais, respectivamente. Por isso, na opinião deles, haverá um movimento inverso ao dos anos anteriores. Os especialistas acreditam que o brasileiro vai correr para entregar prestar contas ao Leão nos primeiros dias, com vista a ficar entre os primeiros a receber a restituição, em vez de deixar para a última hora como no passado.

Geralmente, o Fisco faz sete lotes mensais de restituição do IR no ano, de junho a dezembro. O supervisor nacional do Imposto de Renda da Pessoa Física, Joaquim Adir, informou que esse calendário está mantido. Para Sandra Batista, do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), a intensa procura de ontem é um indício de busca pelo rápido ressarcimento do imposto pago. ;Criou-se uma cultura de busca desenfreada pela restituição do IR;, disse.

A contadora acredita que tal prática deve se intensificar este ano, por causa da crise. ;O problema é que isso passou a ser uma das alternativas, uma espécie de salvação para orçamento familiar furado;. Mas ela destaca que, mesmo em tempos bicudos como agora, o ideal seria que a restituição do imposto funcionasse mais como ;uma poupança na vida do contribuinte;. Sandra reforça que o melhor para o brasileiro seria ;evitar a desorganização financeira, fruto da ausência de planejamento do orçamento familiar;.

Risco

Contar com o dinheiro da restituição logo no começo, no entanto, é um risco. O coordenador do curso de MBA em contabilidade do Ibemec, Humberto Castro, alerta para uma hipótese que, na atual conjuntura, não parece impossível: o governo atrasar o pagamento da restituição de IR. Ele acredita que a Receita pode reduzir os valores pagos em cada lote, beneficiando um número menor de contribuintes e retendo quantidade maior na malha fina, apenas para não pagar. ;É um cenário plausível, dado o aumento no nível de endividamento do governo federal;, disse.

Segundo Castro, verifica-se uma ampliação nos casos em que o setor público tem ;empurrado com a barriga;, ou mesmo deixado de honrar compromissos financeiros com a iniciativa privada, nas datas acordadas. ;Acho que o governo vai protelar, retardar ao máximo as restituições;, enfatiza o professor. Por isso, ele disse que tem desaconselhado seus clientes a apressar a entrega da declaração. ;O melhor mesmo é fazer com calma, para não incorrer em erros ou correr o risco de ficar retido na malha fina;, afirmou ele.

Aristeu Ferreira Tolentino, contador da Prolink Assessoria, explica que para apressar a entrega e tentar garantir uma restituição mais rápida é preciso ter organização. Se os documentos não estiverem arrumados, a ideia de receber nos primeiros lotes vai por água abaixo.


  • Prazo

    Começou ontem e vai até as 23h59 de 29 de abril o prazo para a entrega da declaração de Imposto de Renda 2016, relativa aos rendimentos de 2015. Deve prestar contas à Receita Federal o contribuinte que obteve rendimentos acima de R$ 28.123,91 ou que recebeu rendimentos isentos, não tributáveis e tributado exclusivamente da fonte superior a R$ 40 mil. É preciso ficar atentos a algumas novidades. A partir deste ano, por exemplo, precisarão constar da declaração dos responsáveis a inscrição no Cadastro de Pessoa Física (CPF) para dependentes a partir de 14 anos (antes era só para maiores de 16). Quem perder o prazo terá que pagar multa mínima de R$ 165,74 ou máximo de 20% do imposto devido.

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