DF apura se bebê morreu com zika

DF apura se bebê morreu com zika

Funcionária de hospital que atendeu a mãe grávida infectada afirmou que o feto tinha microcefalia. Secretaria averigua se há ligação entre o vírus e a malformação. Segundo especialistas, somente exames mais profundos podem confirmar a associação

» OTÁVIO AUGUSTO » FLÁVIA MAIA
postado em 02/03/2016 00:00
 (foto: Ed Alves/CB/D.A Press - 18/2/16)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press - 18/2/16)

O avanço das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti não para de crescer no Distrito Federal. Desta vez, um bebê pode ter sido vítima do zika. A criança não teria resistido ao micro-organismo e morreu dentro da barriga da mãe. O parto ocorreu na manhã de ontem, no hospital Santa Lúcia, na Asa Sul. A morte é investigada pela Secretaria de Saúde. Se for confirmada, será o primeiro óbito causado pelo vírus na capital do país. Amostras do sangue do bebê e da mãe foram coletadas para os exames comprobatórios no Laboratório Central (Lacen-DF). A unidade privada informou que cumpriu o protocolo epidemiológico e enviou notificação para a secretaria dentro do prazo de 24 horas.

O contágio não ocorreu no Distrito Federal, segundo a secretaria. A mãe adquiriu o vírus em outra unidade da Federação e pode ter infectado o bebê ; há estudos que apontam que o vírus entra pela placenta e se instala no sistema nervoso do feto. Uma funcionária do Santa Lúcia, que preferiu não se identificar, informou que a criança tinha microcefalia. ;Foi uma surpresa. Assim que a equipe médica soube, transmitiu (a informação) para a direção. Não havia ressalva sobre a infecção por zika na documentação do pré-natal;, contou uma enfermeira.


O Hospital Santa Lúcia não divulgou detalhes do caso e informações sobre a paciente e o bebê. Via nota, a unidade comunicou que não passa dados sobre a vítima porque ;só pode esclarecer qualquer informação do estado de saúde de seus pacientes mediante autorização do próprio ou de seus familiares;.

Associação
A averiguação da causa da morte está a cargo da Subsecretaria de Vigilância à Saúde. Ao todo, a cidade contabiliza 24 casos de microcefalia com associação ao zika. Desses, cinco são apurados. Outros 19 foram descartados. Até o momento, não há confirmações de crianças na cidade com a malformação causada pela infecção transmitida pelo Aedes.

O neurocirurgião do Hospital de Base e do Home Gilmar Saad explica que o óbito pode ter sido causado pela malformação. Ele afirma que o zika vírus passaria a barreira placentária e, uma vez implantado no sistema nervoso, o micro-organismo impede o crescimento do tecido cerebral ; causando desde o ligeiro retardo mental até lesões severas. ;Podemos ter ausência de desenvolvimento de áreas cerebrais responsáveis pela manutenção de funções vitais, como o sistema cardíaco e respiratório. Por isso, o bebê morre.;

O obstetra e especialista em medicina fetal Antônio Morion comenta que, por causa do aumento dos casos de microcefalia no país e por mortes causadas pela malformação na Bahia e em Pernambuco, a orientação das secretarias de Saúde de todo o país é a de realizar um exame minucioso nos fetos com a deficiência. Porém, ele não descarta a possibilidade de a criança ter adquirido outra infecção que ocasionou a morte. ;A Secretaria de Saúde do DF tem que fazer uma autópsia e a análise da placenta para ver se a infecção se deu por zika ou não. Como a mãe tinha o vírus, é provável.;

Estatísticas
Em janeiro deste ano, a Secretaria de Saúde confirmou a infecção de zika em duas grávidas do Distrito Federal. Uma tem 29 anos e a outra, 36. A mais jovem mora na Asa Norte e pegou a doença na capital. A outra paciente, de Águas Claras, foi picada pelo mosquito em Goiânia. Em dezembro de 2015, a Secretaria de Saúde confirmou a morte de um bebê que apresentava diversas malformações, entre elas, a microcefalia. Segundo o Executivo local, não havia qualquer associação ao vírus da zika.

A morte do bebê coloca o DF em alerta. Até então, a quantidade de bebês nascidos com microcefalia vinha seguindo a média considerada normal pelo Ministério da Saúde. De acordo com dados divulgados pelo órgão, apenas dois nascimentos de crianças com a deficiência ocorreram no Distrito Federal em 2014 ; e dois em 2015. O número obedece à média de anos anteriores, com outros dois casos em 2013, um em 2012, três em 2011 e três em 2010.

Quando uma criança nasce com microcefalia, ela não tem apenas um crânio menor. Pelo resto da vida, deverá ser acompanhada e ter o desenvolvimento estimulado com fisioterapia e fonoaudiologia, por exemplo. A literatura médica é unânime: não é possível estabelecer o nível de danos ao cérebro. Por isso, o tratamento deve ser precoce para atenuar os deficits.

O Executivo local lançou, em dezembro, o ;Plano de Ação para o Enfrentamento às Doenças Transmitidas pelo Aedes aegypti;. O documento prevê ações desde o combate do mosquito até o tratamento de pacientes com crânio pequeno. O texto afirma que o acompanhamento dos casos deve ser feito por telefone, além de ser priorizada a identificação viral dos pacientes. ;Deve-se garantir um acesso imediato, evitando-se casos graves e óbitos pela doença;, garante o manual. Hoje, apenas 20 neuropediatras atendem toda a demanda da rede pública do DF. Duas unidades são referência no acolhimento desses pacientes: o Hospital Materno Infantil de Brasília (HmiB) e o Hospital da Criança (HCDF).


Casos de zika este ano

Registros realizados em unidades de saúde do DF

Residentes Entorno Total
na cidade
Notificados 66 11 77
Confirmados 4 2 6
Em gestantes 2 1 3


Microcefalia em 2015/2016

Situações relacionadas ao zika na capital

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