Muito obrigado, Francisco

Muito obrigado, Francisco

O faxineiro que virou celebridade por devolver US$ 10 mil encontrados no banheiro do aeroporto morreu na segunda-feira no Gama, aos 67 anos

» OTÁVIO AUGUSTO
postado em 02/03/2016 00:00
 (foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press - 10/12/13 )
(foto: Daniel Ferreira/CB/D.A Press - 10/12/13 )



O poeta espanhol Miguel de Cervantes pregava que ;a honestidade é a melhor política.; Talvez o faxineiro aposentado Francisco Basílio Cavalcante, 67 anos, nunca tenha escutado essa frase, mas se tornou famoso por praticá-la. Há 12 anos, o cearense ficou conhecido em todo o país por causa de sua boa-fé. Ele devolveu US$ 10 mil (o equivalente a R$ 39 mil, atualmente) que achou no banheiro do Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek. Francisco não resistiu a complicações de um tumor no fígado. Morreu na segunda-feira, no Hospital Regional do Gama (HRG), após oito dias internado. Deixou mulher, seis filhos e nove netos.

A vida de Francisco começou a mudar em uma tarde de trabalho de 2004. Ganhando R$ 370 mensais, ele encontrou a maleta com os dólares. Mesmo preocupado por não ter R$ 28 para quitar a conta de luz, o homem simples recorreu ao sistema de som do saguão para anunciar o achado. O dono do dinheiro, um turista suíço, logo apareceu. ;Essa sempre foi a postura dele. A educação dos nossos filhos foi pautada pela honradez;, conta a viúva, Raimunda Nonata Cavalcante, 64 anos.

O servente virou celebridade. Deu entrevistas a canais de televisão e rádios e realizou um dos sonhos: conhecer o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tornou-se garoto-propaganda do governo federal, popularizando o slogan ;Sou brasileiro e não desisto nunca;, repetido por Francisco na TV, em horário nobre. Recusou cachê pelas aparições. ;Ele adorava ser reconhecido, achava um barato. Até os dias de hoje, as pessoas o cumprimentavam na rua;, detalha a diarista Maria de Jesus Sousa Cavalcante, 42 anos, filha de Francisco. A família tem guardado em casa o vídeo do comercial.





Trajetória

Francisco foi promovido a supervisor, passou a trabalhar de terno e gravata, viajou de avião pela primeira vez. Viveu outras reviravoltas. Em junho de 2012, em cinco dias, foi demitido, recontratado, rebaixado e promovido novamente.Tudo por causa da troca de contrato da empresa prestadora de serviço no aeroporto. ;Fiquei triste porque, no passado, quando precisaram usar a minha imagem, todos me ouviram, pegaram na minha mão e me trataram como igual. Hoje, quando tive esse problema, ninguém estava disposto a ajudar;, desabafou Francisco.

O sotaque cearense carregado o acompanhou até os últimos dias, assim como o bigode. Uma das maiores alegrias era reunir a família. O prato oferecido aos filhos e netos era quase sempre uma fritada de bisteca suína. De sobremesa, como bom nordestino, preferia rapadura. ;Ele tinha um baldinho com o doce cortado. Fazia questão de comprar. Consigo sentir o cheiro daqueles almoços;, lembra Maria de Jesus.

;Se pedisse para ele enumerar as coisas mais importantes da vida, sem titubear a família estaria em primeiro lugar;, garante Raimunda. Francisco era o mais velho dos 12 filhos ; seis homens e seis mulheres ; de Maria José Cavalcante, 88 anos, e João Batista Cavalcante, 96. O amor entre Francisco e Raimunda começou a ser semeado em 1969. ;Vou sentir falta. Ele era meu companheiro para tudo. Conversávamos muito. Nos últimos tempos, apesar da doença, ele estava bem feliz;, ressalta Raimunda. O casal vivia em Sobral há três anos. Antes, viveram na capital federal por 35 anos.

A doença

Desde agosto de 2015, a saúde de Francisco estava comprometida. O câncer no fígado foi descoberto no último dia 24. ;Ele tentou tratamento lá (no Ceará), mas não conseguiu. Com o passar do tempo, o quadro ficou grave. Chegou ao ponto de não andar, comer e falar. Nos últimos dias, ele não tinha força para segurar um copo. O tumor foi descoberto assim que deu entrada no hospital;, frisa Maria de Jesus. Essa é a segunda vez que Francisco enfrenta o câncer. Em 2012, tumores no estômago e reto o levaram a ser internado num hospital.

;Ele teria que ter feito o exame periódico a cada seis meses, mas, por não ter sentido nada, achou que não era preciso. O último tratamento que ele fez foi contra pneumonia. Ele piorou bastante. Emagreceu oito quilos muito rápido;, conta a filha. Durante o período de internação, o paciente realizou diversos exames, segundo a Secretaria de Saúde. ;Apesar do tratamento oferecido, ele não apresentou mudança no quadro clínico e veio a óbito, após uma de parada cardiorrespiratória;, garante nota da pasta.

O sepultamento será realizado hoje, no Cemitério Municipal da Cidade Ocidental, às 10h. ;Tudo o que fiz ganhei em dobro. Tenho a consciência limpa e durmo tranquilo toda noite;, cravou Francisco em um das suas últimas entrevistas ao Correio.

"Essa sempre foi a postura dele. A educação dos nossos filhos foi pautada pela honradez;
Raimunda Nonata Cavalcante, viúva

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