O sonho da paz

O sonho da paz

postado em 02/03/2016 00:00
Quando todas as lágrimas secarem. E a humanidade encontrar a bondade/Quando as mães não mais forem forçadas à cruel eterna despedida dos filhos, silenciados pela bala dividida entre bandido e Estado/E a vida retornar aos trilhos/E nenhuma dor de injustiça sequestrar uma alma/Talvez valha a pena acreditar no amanhã que nunca tarda/E adormecer acalentado pela paz.

No Brasil, se mata e se morre por nada. Em 2014, 53.240 pessoas foram tolhidas do direito à vida e arrancadas para sempre do seio da família. A cada 10 minutos ocorre um homicídio em nosso país. Alguns diriam que a violência é universal e inata ao homem. Uma teoria estapafúrdia, banalizadora de algo que não deveria existir. Outros atribuiriam o fenômeno à marginalização de parte da sociedade, excluída de qualquer perspectiva de prosperidade socioeconômica. Argumento preconceituoso e imoral, por associar a idoneidade à condição financeira. A grande maioria dos brasileiros de origem carente jamais teria coragem de ceifar a vida alheia. São movidos por princípios morais e éticos verdadeiros, herdados dos pais.

No Brasil, a bala que sai do revólver é compartilhada pelo bandido e pelo Estado. Um Judiciário arcaico e por demais moroso, um Código Penal repleto de brechas e de punições brandas, um sistema penitenciário falido e um governo omisso na segurança pública são os ingredientes para a impunidade. Nossas cadeias mais se parecem com depósitos de criminosos e não cumprem o papel de instituições ressocializadoras. A progressão de pena e sentenças mais condescendentes com o marginal do que com os familiares da vítima pendem a balança da Justiça para um único lado. O exemplo que vem de cima, das autoridades e gestores públicos, atolados na corrupção, sinaliza que o crime compensa.

A cada dia, mães são obrigadas à eterna e cruel despedida dos filhos. Há pouco mais de dois anos, Ana Cleide foi forçada a dar adeus a Leonardo, diante de seu prédio, em Águas Claras. A imagem do corpo estendido no chão, ao lado de uma vela acesa, dói na alma de qualquer cidadão de bem. Em 2 de fevereiro passado, um pai foi brutalmente assassinado na frente da escola dos filhos em plena luz do dia, vítima de latrocínio, no Guará 2.

Vinte dias depois, em Goiânia, Natália de Sousa, 20 anos, matou a estudante rondoniense Nathália Zucatelli, 18, que morava na capital de Goiás havia um ano e sonhava ser médica. Abordada ao caminhar de volta para casa, após a aula em um cursinho, carregava apenas livros e fichários. A mãe de Nathália, Maria José Zucatelli, teve a grandeza sobrehumana de perdoar os algozes da filha por entender que são tão vítimas quanto a garota. Talvez um dia possamos mostrar a Ana Cleide, a Maria José e a tantas Marias e Anas deste nosso Brasil que vale a pena acreditar no amanhã. Para que possam adormecer acalentadas pela paz.



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