A cara indígena da América Latina

A cara indígena da América Latina

JORGE FAMILIAR Vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe
postado em 02/03/2016 00:00
No futuro, quando avaliarmos a história da América Latina do início do século, certamente predominará o relato de um boom econômico que deixou para trás uma transformação social de grande envergadura. Na verdade, a cara da América Latina mudou expressivamente entre 2003 e 2013. A pobreza extrema se reduziu à metade e, pela primeira vez na história, o número de latino-americanos pertencentes à classe média superou o dos que vivem na pobreza. Mas será que essa história reflete a experiência dos 42 milhões de indígenas que vivem hoje na América Latina? De acordo com o novo estudo do Banco Mundial América Latina indígena no século 21, a resposta é sim em algumas áreas, mas não em todas.

Por um lado, os povos indígenas latino-americanos registraram grandes avanços em matéria de redução da pobreza e acesso a serviços básicos. No Peru e na Bolívia, por exemplo, cerca de um terço e um quarto dos domicílios indígenas, respectivamente, saíram da pobreza. O acesso à eletricidade em suas casas aumentou quase 50% em países como o Panamá e o Peru; e o acesso à educação tornou-se, provavelmente, o sucesso mais importante da década. De fato, no Equador, no México e na Nicarágua fechou-se a brecha de assistência escolar primária entre as crianças indígenas e as demais.

Apesar das conquistas e dos avanços, ainda há muito por fazer. A informação e os dados disponíveis nos mostram uma realidade de exclusão. Embora as comunidades indígenas representem 8% da população total da região, constituem 14% dos pobres e 17% dos extremamente pobres. Isso é claramente inaceitável. Ao contrário do que se poderia imaginar, hoje quase metade dos habitantes indígenas da América Latina vive em áreas urbanas. Nesses entornos, é comum encontrá-los em condições mais inseguras, insalubres e propensas a desastres naturais que outros residentes urbanos. E nas áreas rurais, onde ainda vive a maioria dos povos indígenas (60% em países como Brasil, Colômbia, Equador, Honduras e Panamá), a defasagem é maior e o acesso aos serviços públicos, muito mais limitado.

Atingir nossas metas de erradicar a pobreza extrema e promover o crescimento com equidade requer esforços particulares e informados para incluir a população indígena, bem como outros grupos de latino-americanos que são vítimas da exclusão. Para entender e atender melhor às necessidades dos povos indígenas, é fundamental levar em consideração sua própria visão com relação a seu desenvolvimento. Em nossas consultas e diálogos com povos indígenas, temos aprendido que respeitar a identidade cultural não significa estar contra a criação de oportunidades para todos e a busca pelo bem-estar.

Por isso, a melhoria da qualidade de vida das populações indígenas deve incluir políticas que levem em conta suas vozes, culturas e identidades, além de luta frontal contra a exclusão. O empoderamento das mulheres será determinante, assim como maior acesso de crianças e jovens indígenas à educação bilíngue e de qualidade. Só assim poderemos aumentar as oportunidades de todos os latino-americanos de ter uma vida melhor e posicionar a região para enfrentar os desafios do futuro; um futuro em que a cara da América Latina continue mudando para melhor, sem deixar grupo algum para trás.





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