Receita para tirar o país do atoleiro

Receita para tirar o país do atoleiro

Melhoria do ambiente de negócios e ampliação dos investimentos, aumentando a produtividade e ganhando mercados externos, são caminhos para interromper a queda do PIB. Mas dependem de quadro político mais favorável

PAULO SILVA PINTO ROSANA HESSEL
postado em 06/03/2016 00:00

Os brasileiros sabem, e já faz tempo, que ficaram mais pobres. Na semana passada, descobriram quanto, com a queda de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015. O que muitos se perguntam agora, na academia, nas empresas e nas ruas, é o que fazer para interromper a queda e retomar o crescimento.

;Mesmo que ficássemos no nível atual, depois de uma redução tão grande, já seria muito ruim. E a perspectiva é de nova queda neste ano;, afirma o economista João Saboia, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A expectativa média do mercado é de queda de 3,45% do PIB de 2016 (leia texto ao lado), mas não falta quem aposte em algo bem pior. A não ser em períodos remotos do início da República, o país nunca passou por um trauma econômico dessa ordem.

As soluções para o país passam obrigatoriamente pela melhora da produtividade, o que depende de melhor infraestrutura, regras mais amigáveis aos negócios e maior eficiência nas fábricas e nos serviços. O problema é que o governo não consegue mais dar conta de suas obrigações nesse sentido. E é difícil conseguir que as empresas façam o que lhes cabe, apostando no país.

;Não é possível contar com investimentos públicos na situação em que o país está. Precisamos de investimentos privados. Mas os empresários não vão se mexer enquanto não enxergarem perspectivas de melhora da economia;, comenta Saboia.

A razão para o imobilismo é que ninguém vai tirar dinheiro do bolso se não for para ganhar algo além dos 14,25% garantidos pela taxa básica de juros (Selic). Nas condições atuais do país, o perigo é, além de não ganhar nada, perder tudo o que for aplicado: novos empreendimentos correm o risco de ficar às moscas.

Impasse fiscal
Qualquer melhora na situação fiscal do país seria decisiva para mudar o quadro. O país encerrou o ano passado com deficit primário de 1,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Neste ano, espera-se que o descompasso entre arrecadação e gastos, sem contar as despesas com juros, chegue a 2% do PIB.

A dívida bruta já chegou a 67% do PIB em janeiro. Até o fim do ano, poderá encostar em 80%. Essa trajetória explosiva é que resultou na perda do grau de investimento por parte das agências de classificação de risco. A reversão da tendência de alta traria um alívio e grande melhora das expectativas. Mas depende de o governo conseguir a aprovação de medidas de ajuste fiscal no Congresso Nacional, o que, diante da corrosão da base de apoio, parece uma miragem.

Nesse quadro, qualquer chance de troca do governo faz os mercados reagirem com otimismo, mesmo diante da incerteza de quem ocupará o cargo. Para a consultoria MB Associados, o PIB terá queda de 4,9% neste ano, mas a retração poderá ser de 3,8% caso Dilma Rousseff deixe o poder até o fim do primeiro semestre.

Mesmo sem grandes transformações, com mudanças pontuais, seria possível conseguir melhora. Na avaliação de especialistas, já ajudaria muito se o governo construísse uma estratégia voltada para o crescimento com uma agenda de reformas microeconômicas, facilitando o ambiente de negócios. Medidas assim tendem a ser mais fáceis de serem aprovadas no Congresso do que propostas no âmbito fiscal. Mas é preciso correr: a partir da segunda metade do ano, os parlamentares estarão preocupados com as eleições municipais.

Uma oportunidade de crescimento está nas exportações e na substituição de produtos importados depois de o real ter perdido 42% do valor diante do dólar no ano passado. Marcos Troyjo, diretor do BRIC Lab da Columbia University, em Nova York, lembra que o descaso com a agenda internacional e a inserção do país no cenário global de forma mais incisiva agora será sentido. ;Bastou o dólar subir para que a balança comercial voltasse a registrar superavit, sem que o país tenha feito qualquer acordo comercial. Imagine se houvesse uma estratégia mais concreta;, destaca.

No entender de Troyjo, só não há fuga de capital porque muitos investidores ainda acreditam que o país sobreviverá à crise atual graças ao mercado interno gigantesco e com grande potencial de crescimento. ;Estamos no fundo do poço, mas ainda há fluxo razoável de investimento estrangeiro direto porque há muita liquidez no mercado;, afirma.

Ele chama atenção, porém, para a mudança no perfil dos investidores. ;O capital entra para aquisições de companhias que estão muito baratas. É um contrassenso com a política nacionalista do governo. As empresas estão se desnacionalizando porque não conseguem sobreviver à crise;, alfineta.



Ociosidade
Evandro Buccini, economista da Rio Bravo, vê sinais alguns favoráveis ao investimento devido ao fato de que os estoques estão muito baixos. Mas ele mesmo argumenta que isso, por si só, está longe de garantir intensificação da atividade. ;O problema é que o uso da capacidade instalada da indústria está muito baixo. Essa ociosidade desincentiva investimento;, afirma.



;Os empresários não vão se mexer enquanto não enxergarem perspectivas de melhora da economia;
João Saboia, professor de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

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