Temperatura máxima

Temperatura máxima

anadubeux.df@dabr.com.br
postado em 06/03/2016 00:00

De todas as fases da Operação Lava-Jato, a última foi a que teve mais impacto. Porque toca na figura mais emblemática da política brasileira. Presidente duas vezes, deixando o governo com aprovação recorde, e um dos maiores responsáveis por manter o PT mais dois mandatos no primeiro cargo público do país, Lula é praticamente um mito, ainda que seja agora considerado um suspeito. Levar à força uma pessoa como ele para dar explicações à Polícia Federal foi um ato no mínimo controverso. Certamente, vai deixar sequelas, sobretudo no estado de ânimo da nação.

A condução coercitiva é um instrumento legítimo de investigação usado várias vezes nas mais de duas dezenas de fases da Operação Lava-Jato. Para alguns, como os advogados de defesa de Lula e o ministro do STF Marco Aurélio Mello, a medida foi extrema nesse caso. O Palácio do Planalto, na voz da presidente Dilma, classificou a atitude como desnecessária, já que o petista nunca se recusou a depor. E Lula sentiu-se um ;prisioneiro; desrespeitado, como discursou. As entidades jurídicas, incluindo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), defenderam a condução coercitiva, autorizada por Sérgio Moro, como válida, correta e não abusiva. A polêmica deve se estender num debate interminável em meios jurídicos, midiáticos, sociais.

A pergunta de agora é: que trincheiras são abertas na política brasileira à medida que as investigações se aproximam dos dois líderes máximos da nação, o mítico e o de fato? Fala-se no risco mais real e iminente de impeachment; num caminho mais livre para a oposição, que parece ainda não saber surfar numa onda perfeita. O Planalto e o PT reagiram forte e rapidamente. Lula fez um discurso emocional, Dilma desqualificou Delcídio do Amaral, antes o homem forte e leal de ambos. De forma geral, tentam transformar as investigações num circo patrocinado pelo que chamam de mídia golpista. Ao que parece, a democracia brasileira chegou a um ponto de amadurecimento em que é impossível brecar instituições como o Ministério Público e a Polícia Federal. A Lava-Jato não vai parar. E é bom que seja assim.

A reação da última sexta-feira, sobretudo do PT, antes um tanto quanto acanhado, foi ruidosa, com tom de campanha eleitoral. Lula convocou seus militantes, que parecem muito mais sensíveis a ele, já que o partido vem sofrendo sucessivos baques e o governo, também. Há muito não se via uma militância tão vivaz e também furiosa. Há muito os petistas de carteirinha não se sentiam tão à vontade para defender um dos seus. Com a economia em colapso, o país parado e os políticos envoltos nos escândalos, a estrela vermelha parecia desbotada.

Enquanto o país em oposição bate panelas, se veste de verde e amarelo e se programa para tomar as ruas no próximo fim de semana, o PT arregimenta sua tropa, ganha aliados nos movimentos sociais, como os sem-terra, e promete mostrar sua força. A semana começa tensa, com prováveis desdobramentos das investigações e com o aviso de manifestações nas ruas. Será difícil respirar. Que possamos sobreviver aos fatos.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação