Equívocos inocentes? Nem tanto

Equívocos inocentes? Nem tanto

JAIME PINSKY Historiador, professor titular aposentado da Unicamp, diretor da Editora Contexto E-mail: jaimepinsky@gmail.com
postado em 06/03/2016 00:00

Ninguém sabe quem inventou o filé à francesa, aquele acompanhado por batatas palito, cubos de presunto e ervilha, mas seguramente não foi um francês ; nenhum restaurante francês ostenta esse bife Da mesma forma, desista de pedir em Havana um filé à cubana, com frutas tropicais à milanesa e ovo frito, prato ainda muito popular nos restaurantes do interior paulista. Talvez, com o incremento de turismo na ilha, algum brasileiro decida colocar o prato nos cardápios local, mas por enquanto...

Também fiquei surpreso ao ver que o espaguete à bolonhesa, que frequenta com assiduidade as mesas domingueiras, não tem esse nome em Bolonha, mesmo porque nem sequer é feito com espaguete, e sim com o fettuccine e se chama, modestamente, al ragu. E pedir para comer um americano nos Estados Unidos pode parecer aos olhos deles uma atividade antropófaga (ou vulgarmente sexual), mas nunca seria interpretado como devorar um sanduíche de presunto e queijo derretidos, acrescidos de ovo frito e uma folha de alface, como sabe por aqui qualquer chapeiro de padaria.

Se em comidas a confusão pode ser inócua, o mesmo não se pode dizer de outros equívocos disseminados, às vezes, sem má intenção (e, às vezes, sem tanta inocência). Leio, frequentemente, até em manuais de história, frases como ;Cinco ou seis milhões de negros vieram ao Brasil como escravos;. Ora, se escravos, não vieram. Foram trazidos. Não se trata de diferença puramente semântica, mas verdadeiramente epistemológica. Ninguém vem para ser escravo. Negros não vieram da África, foram escravizados e trazidos à sua revelia.

Da mesma forma criou-se o verbo judiar no sentido de maltratar, com referência ao sofrimento imposto a Jesus durante seu calvário. Ora, ele não foi crucificado pelos judeus, que sequer praticavam a crucificação. Ela era praxe romana para punir adversários do poder imperial. Não era incomum até crucificar gente de ponta cabeça, como atesta farta documentação a respeito. Contudo, não existe o termo romanizar, como sinônimo de maltratar, e sim judiar. Claro que a história explica isso. De ideologia de dominados, o cristianismo, bem modificado com relação às suas raízes, conquista Roma e faz dela a sua sede ; onde até hoje se localiza o Vaticano. Como, então, utilizar um verbo que pudesse ofender os romanos?

Termos e expressões preconceituosas com relação a negros, mulheres, imigrantes de várias origens, migrantes nordestinos, mulheres, homossexuais, até mesmo contra obesos, ou baixinhos são usados no dia a dia (ver o livro 12 faces do preconceito) e muitas vezes nem sequer notamos a origem da palavra que denigrem as minorias (ops, denegrir é uma delas...). Concluir uma tarefa com cuidado e perfeição e dizer que é trabalho de branco não passa de uma forma de mostrar que o trabalho feito por negros, ou de uma forma negra (o que quer que isso possa significar) é um trabalho porco, malfeito. Preconceito puro.

Os equívocos nem sempre são tão inocentes, como denominar erradamente um filé ou uma massa. Quando dizemos mulher ao volante é perigo constante estamos fazendo um conjunto de afirmações com objetivos claros: dizemos que mulheres, pelo simples fato de pertencerem ao sexo feminino, são mais incompetentes do que os homens para dirigir, como se o falo masculino fosse fator positivo no desenvolvimento da capacidade de conduzir um veículo automotor. Na verdade, digo mais: que, pelo fato de ser homem, sou superior a ela; e ela, pelo fato de ser mulher é inferior, não só a mim, o emissor da brilhante frase, mas de todos os homens do planeta. Claro que o argumento não resiste a nenhuma análise, mas continua sendo usado como forma de dominação. Estabelecer relação de superioridade diante do outro é uma maneira de ocupar espaço, empoderar-se. Não se esqueça que a ideologia nazista, que dominou a Alemanha durante mais de uma década, garantia que o mais idiota dos loiros arianos era superior a todos os judeus; mesmo Albert Einstein, um dos maiores gênios da história da humanidade, porém judeu...

A ideologia cegou muita gente de um dos países mais cultos da Europa. Ter os olhos bem abertos é uma forma de manter a lucidez, de não se deixar enganar. Faz parte de uma sociedade democrática lutar contra o preconceito e a discriminação. Mesmo que continue apreciando o filé à francesa.

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