Educação contra o câncer

Educação contra o câncer

Considerado um dos melhores oncologistas do mundo, o ex-aluno da Universidade de Brasília aposta na prevenção primária, focada na instrução de jovens, para vencer a doença que incide no Brasil de formas distintas

Paloma Oliveto
postado em 06/03/2016 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 15/6/11)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 15/6/11)

Sob seus cuidados, passaram Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, José Alencar e Reinaldo Gianecchinni, entre outros. Contudo, quem conhece o oncologista Paulo Hoff, 47 anos, garante que a atenção e os cuidados do médico com famosos são os mesmos dispensados a qualquer paciente, seja rico, seja usuário do Sistema Único de Saúde. Graduado em medicina pela Universidade de Brasília (UnB), o paranaense de Paranavaí ingressou no meio acadêmico muito jovem, ainda aos 16 anos. A precocidade, aliás, é uma marca na carreira de Paulo Hoff, diretor-geral do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês da capital paulista, que também atende na unidade da instituição em Brasília. Antes de chegar aos 40, ele já era considerado um dos melhores e mais promissores oncologistas do mundo.

No fim de semana passada, o médico esteve no Distrito Federal, durante o simpósio Oncologia Integrada III, evento que marcou os cinco anos de atividade do Sírio na capital federal. Ele também participou da inauguração da nova máquina de radioterapia e radiocirurgia da unidade de Brasília, o acelerador nuclear TrueBeam STX, único do Brasil. O equipamento é mais moderno e preciso e, entre as vantagens, está a redução do tempo dos procedimentos. Com capacidade de atender até 80 pacientes por mês, a máquina também será utilizada por pacientes da rede pública devido a um convênio do Sírio com o Governo do Distrito Federal. Em entrevista ao Correio, Paulo Hoff fala sobre os desafios do diagnóstico e do tratamento do câncer no Brasil. ;Mesmo naquela população brasileira que tem acesso à saúde suplementar, a prevenção e a detecção precoce não estão bem estabelecidas;, adverte o oncologista.




Multidisciplinar
A ideia de um tratamento multidisciplinar para o paciente não é uma novidade em termos mundiais. Quando olhamos um local como o MD Anderson (hospital oncológico da Universidade do Texas), no fim do século 20, eles já estabeleciam as primeiras clínicas multidisciplinares. É como se fosse uma parada única, com todos os serviços necessários ao paciente: oncologista, cirurgião oncológico, radio-oncologista, psicólogo, nutricionista. É claro que nem todo paciente necessita de todos esses serviços, mas a ideia é você ter pelo menos a disponibilidade. No Brasil, a ideia se torna cada vez mais popular. Você tem diversos serviços, inclusive públicos, como no Instituto do Câncer de São Paulo, em que isso é feito. Nossa ideia é aprofundar esse conceito, dar ao paciente acesso ao tratamento necessário.

Diagnóstico precoce
No Brasil, há uma variação muito grande regional e social. Você tem, por exemplo, no Sul, no Sudeste e em parte do Centro-Oeste, uma cobertura muito boa de mamografia e papanicolau; e no Norte e no Nordeste, infelizmente, há uma situação em que parte substancial da população não tem acesso a esses exames. Ou porque os equipamentos não estão disponíveis ou porque as pessoas não estão suficientemente instruídas para procurar o acesso. O câncer de colo uterino, por exemplo, que é o garoto propaganda da prevenção, está controlado de uma maneira, se não ideal, mas já bastante avançada no Sul e no Sudeste, mas continua sendo um problema de saúde gravíssimo para as mulheres na região Norte. Então, se você me perguntar como está nossa prevenção precoce no Brasil, digo que ela precisa melhorar. Outro ponto é que, mesmo na população que tem acesso à saúde suplementar, a questão da prevenção, da detecção precoce, não está bem estabelecida. Ainda temos muitas pessoas, mesmo de classes sociais mais altas, que não fazem a prevenção como deveriam.

Ação do governo
O Ministério da Saúde tem uma situação real em que o financiamento não está a par com tudo que se demanda, o que torna mais difícil. Mas, de uma maneira geral, conseguimos dialogar. Acho que, em termos de prevenção do câncer de mama e de colo uterino, a resposta do ministério tem sido boa, com esforço para que trabalhos de prevenção se tornem mais comuns. Mas, por uma série de razões, a prevenção de outros tumores importantes, como o câncer colorretal, ainda não foi adotada pelo ministério e por muitas operadoras de saúde suplementar. Hoje, o câncer colorretal é a terceira causa de câncer entre homens, a segunda entre mulheres, associada à mortalidade.No entanto, não temos detecção precoce dele no sistema público. A gente entende que as diversas demandas sobre o ministério tornam difícil o recurso necessário para esse tipo de prevenção. Talvez, um ponto importante fosse reconhecer que o Brasil tem uma população bastante heterogênea e que alguns esforços de prevenção poderiam ser regionalizados. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, o risco de cólon é muito maior do que em algum estado do Nordeste. O ministério tende a pensar os programas como de alcance nacional.

Campanhas focadas
Seria importante trabalharmos com a prevenção primária, que é evitar a formação de um tumor. A secundária é a detecção precoce, com mamografia, teste de sangue oculto nas fezes, papanicolau... A primária é até mais importante porque você evita o aparecimento da doença, e essa é predominantemente educação. E para os jovens. Parte dos tumores começa o desenvolvimento cedo e pode levar décadas para que apareça clinicamente. Fazer uma mudança comportamental em pessoas de meia-idade não leva a tantos benefícios quanto em jovens. No estado de São Paulo, o Instituto do Câncer está fechando uma parceria com a Secretaria Estadual da Educação para disponibilizar aos professores da rede pública noções de prevenção. Nós acreditamos que o jovem é que deve ser o alvo das campanhas de prevenção primária. Se você tiver sexo seguro, uma dieta balanceada, evitar o sedentarismo e o fumo, o risco de câncer na idade adulta cai bastante. Fizemos um programa piloto anos atrás e foi um sucesso de público. Os alunos gostaram muito. Distribuímos 2 milhões de cartilhas aos estudantes do ensino médio. A ideia agora é levar esse conhecimento aos professores de ciência para que eles passem aos alunos. O projeto está em fase final de implantação em São Paulo, e eu imagino que o Distrito Federal, que tem extensão geográfica mais reduzida, seria um excelente local para esse tipo de iniciativa. É barata, de grande alcance social e pode levar, inclusive, à economia. Mas esse benefício e essa economia vão aparecer daqui a 20 anos. Tem de ver isso como uma pol

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