A cegueira da ansiedade

A cegueira da ansiedade

Segundo estudo israelense, pessoas ansiosas percebem a realidade de forma distorcida, fenômeno que parece ligado ao funcionamento do cérebro. Psicoterapia e prática de ioga podem beneficiar pacientes

postado em 06/03/2016 00:00
 (foto: Weizmann Institute of Science/Divulgação)
(foto: Weizmann Institute of Science/Divulgação)



;Ele não morde.; ;O avião não vai cair.; ;Calma, você não vai se afogar.; Quem sofre de transtornos de ansiedade generalizada está cansado de ouvir frases como essas. Se, por um lado, os que não têm o problema são incapazes de entender como um cachorrinho, um voo ou um banho de piscina podem despertar sensações desesperadoras, por outro, parece que não entra na cabeça das pessoas extremamente ansiosas que nada disso representa uma ameaça. Simplesmente dizer a elas que fiquem tranquilas porque não há nada a temer é ineficaz. Porque isso é exatamente o contrário do que seus cérebros estão alertando.

Ansiosos têm uma visão distorcida da realidade, percebendo diversas experiências normais como negativas. E, de acordo com uma pesquisa recente, não se trata somente de uma questão comportamental. Um experimento realizado no Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, mostrou que o cérebro de quem sofre desse mal falha ao diferenciar estímulos estressantes daqueles neutros. Embora esse seja apenas um dos componentes que formam o distúrbio, os pesquisadores acreditam que a descoberta poderá ajudar a desenvolver novos tratamentos para a ansiedade generalizada, mal que afeta praticamente todos os aspectos da vida dos pacientes.

O estado de alerta é uma importante ferramenta evolutiva. Sem medo, o homem se arriscaria mais do que o recomendado, expondo-se a perigos reais. Por isso, alguns pesquisadores sustentam que a origem das fobias teria raízes na ancestralidade humana. O medo de avião, por exemplo, viria da predisposição biológica de temer alturas e locais fechados. Contudo, a maioria das pessoas sabe distinguir as ameaças verdadeiras das imaginárias. Já as que sofrem de ansiedade generalizada, um conjunto de fatores influenciaria esse comportamento temerário.

Acredita-se, por exemplo, que os genes tenham importante participação na fisiologia do distúrbio, pois atuam na regulação dos neurotransmissores, substâncias que influenciam o humor e o sono. Alguns estudos já mostraram que, nos ansiosos, as proteínas que regulam o glutamato funciona de maneira incorreta, produzindo-o em excesso. Dessa forma, o centro de alarme cerebral torna-se hiperativo.

Experimento
Agora, para verificar o que acontece nos circuitos cerebrais dos pacientes ansiosos, os pesquisadores israelenses desenharam um teste no qual investigaram como pessoas com o problema e outras mentalmente saudáveis respondiam a determinados estímulos. Nesse caso, os cientistas usaram três tons, cada um em uma frequência, que representavam estímulos negativos, neutros e positivos.

Divididos em dois grupos ; ansiosos e controle ;, os voluntários foram treinados para associar os tons à perda de dinheiro, a nenhuma consequência e ao ganho de dinheiro. Depois de condicionados, eles tinham de ouvir 15 tons diferentes e dizer se haviam escutado algum desses três. Se acertassem, seriam pagos, como recompensa.

As pessoas ansiosas eram mais propensas a associar um novo tom a um anterior que estivesse carregado de significado emocional. Ou seja, ao ouvir os novos sons, tendiam a achar que os haviam escutado durante o treinamento, e que eles significavam algo negativo ou positivo. Jamais neutro. ;Para o mal ou para o bem, pacientes com ansiedade tendem a generalizar os estímulos. No nosso experimento, isso significou que, diante de um novo tom, eles já ficavam ansiosos, achando que significaria perder ou ganhar dinheiro;, esclarece Rony Paz, principal autor do estudo e pesquisador do Instituto Weizmann.

Enquanto faziam o teste, os voluntários também passavam pelo exame de ressonância magnética funcional, que mede as respostas cerebrais. Esse mapeamento mostrou que a amídala ; região do órgão associada ao medo, à ansiedade, à motivação e ao comportamento emocional ; fica mais ativada no grupo dos ansiosos, comparado ao das pessoas mentalmente saudáveis.



Mudança de hábitos

Liat Levita, psicóloga da Universidade de Cambrigde que não participou do estudo, mas conhece o trabalho de Paz, afirma que isso não significa que é impossível mudar o comportamento ansioso das pessoas que sofrem do problema. Pelo contrário, para a pesquisadora, descobrir que circuitos cerebrais associados ao transtorno funcionam de maneira diferente ajuda a pensar em novos tipos de tratamento para ansiedade generalizada ; não necessariamente medicamentosos, pois a plasticidade do órgão permite que ele mesmo se reorganize, formando novas conexões. ;Para tanto, existem estratégias terapêuticas diversas, como terapia comportamental e modificações no estilo de vida, que podem incentivar a criação de novos circuitos cerebrais;, destaca.

Em 2014, pesquisadores da Universidade Queen, no Canadá, publicaram, na revista Plos One, um artigo descrevendo como pacientes que fizeram caminhadas e ioga tendiam a perceber outras pessoas como menos ameaçadoras do que antes. Nesse caso, eles sofriam de ansiedade social, quando a presença de estranhos desencadeia sensações desagradáveis, pois o indivíduo pode achar, por exemplo, que está sendo julgado e avaliado negativamente o tempo inteiro. Em nota, um dos autores do estudo, Adam Heenan, explicou que bastaram sessões de 10 a 15 minutos de exercícios diários para modificar a percepção dos pacientes. ;Isso demostra que exercícios e técnicas de relaxamento como ioga podem ajudar no tratamento de fobias;, disse.

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