O drama de Lula

O drama de Lula

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br (cartas: SIG, Quadra 2, Lote 340 / CEP 70.610-901)
postado em 06/03/2016 00:00

Cresci à sombra do regime militar de 1964 e da utopia da redemocratização do país. Fernando Henrique Cardoso ou Lula lá na Presidência éramos nós no poder. Mas logo depois de eleito, FHC nos daria dura lição de realidade: o Congresso é um ninho de cobras e não se governa sem negociar ou mesmo comprar o apoio delas.

A ascensão de Lula ao poder não representou ruptura, mas sim desdobramento e acirramento da situação. Os companheiros petistas foram flagrados comprando o apoio político para governar com o mensalão. À época, Lula tentou defender o indefensável. E, de certa forma, foi bem-sucedido, manteve-se no poder e ainda patrocinou a eleição e a reeleição de Dilma.

Na sexta-feira, pela manhã, liguei a televisão e quase não acreditava no que via. Parecia estar dentro de um pesadelo. A 24; etapa da Operação Lava-Jato tinha como alvo o ex-presidente e colocava nas ruas de São Paulo, do Rio e de Salvador 200 agentes em mandados de busca e apreensão. Sei que muitos comemoram, mas eu fico triste. Considero Lula uma pessoa de inteligência, sagacidade política e qualidade humana excepcionais.

Mas parece que dois mandatos e mais a eleição e reeleição de Dilma, uma ilustre desconhecida, imposta por ele, não fizeram bem a Lula. Ele perdeu o senso de realidade, embarcou no delírio e passou a se comportar não na condição de ex-presidente, mas de imperador do Brasil. O legado de realizações ao país não lhe confere o direito de pairar acima da lei.

Independentemente de novas investigações, o que já foi revelado são, no mínimo, suspeitas. Segundo levantamento da Polícia Federal, ele recebeu mais de R$ 30 milhões das empreiteiras envolvidas nas falcatruas da Operação Lava-Jato pelo Instituto Lula e pelo Instituto Lils (que promove palestras). As empreiteiras não são empresas que se distinguem pelo altruísmo ou pelo idealismo.

Lula pede respeito. Mas ele deveria ser o primeiro a respeitar mais a própria história de resistência, luta e liderança que construiu ao longo dos anos. Ele não é Fernando Collor ou Eduardo Cunha. No entanto, desde que ascendeu ao poder, imbui-se de tamanha megalomania que renunciou a qualquer senso de autocrítica. Parece aquele personagem de Nelson Rodrigues a quem interpelam: ;Mas os fatos desmentem as suas teorias;. E responde: ;Pior para os fatos;. É o caminho seguro para a derrocada.

O pior é que, com sua capacidade de liderança, ele arrasta o PT e a militância. Culpar a imprensa pelos próprios equívocos é primário. É certo que, nos tempos da ditadura, a Rede Globo simplesmente censurou matérias sobre a mobilização pelas Diretas Já e teve atuação execrável.

Contudo, nos dias de hoje, com todos os problemas, o jornalismo é muito mais profissional. É inaceitável a violência contra os jornalistas que cobrem a Operação Lava-Jato. Lula deveria conclamar a militância à civilidade. Ele pretende colocar-se na situação de vítima. Mas se tornou vítima de si mesmo, da sua sagacidade e da sua soberba.

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