Em busca de uma virtude perdida

Em busca de uma virtude perdida

O diálogo não pressupõe apenas a disposição para ouvir atentamente opiniões divergentes: é necessário estar aberto a possíveis mudanças na maneira de ver o tema em debate

postado em 06/03/2016 00:00
 (foto: Breno Fortes/CB/D.A.Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A.Press)




Mesmo depois de passar por séculos de transformações desde a conceituação dos filósofos gregos, o diálogo segue como elemento fundamental para uma sociedade harmônica e democrática. No entanto, em diversas situações, ele tem sido substituído por embates em que as opiniões divergentes não são aceitas. Foi desse ponto que partiu o seminário Dialogar para Liderar, de maneira a definir o que é o diálogo.


;É preciso que nós, se queremos nos dirigir ao diálogo, saibamos incorporar a razão do outro. Não basta aceitar que o outro fale. O diálogo exige modificação dos nossos pontos de vistas, exige que nós reconsideremos as nossas premissas;, resumiu o professor Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), ao participar da mesa de abertura do seminário Dialogar para Liderar, e foi além: ;Ele exige mais, exige que sejamos mais fiéis ao patamar do diálogo do que ao nosso interesse inicial. Quem entra no diálogo entra disposto a sair dele diferente do que entrou; (leia Para saber mais).


Quem proferiu a palestra motivadora da mesa de abertura, sobre a genealogia do diálogo, foi o também professor da USP Adriano Machado Ribeiro, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Ele apresentou um histórico do debate, passando pelas citações de Sócrates, as obras de Platão, o pensamento do filósofo romano Cícero, e chegando à era da internet (leia artigo na página 11).

Alteridade

Já o debatedor Daniel Mangabeira, diretor de Políticas Públicas da Uber, trouxe à discussão a perspectiva de uma empresa nascida na internet: para que a comunicação entre duas ou mais partes seja efetiva, é necessário que haja reconhecimento mútuo. ;Esse é um fundamento necessário para que tenhamos outro elemento dessa questão estratégica, que é a racionalidade;, explicou. ;Ou seja, que sejamos capazes, ao reconhecer um ao outro, de poder promover essa alteridade de diálogo. Que sejamos capazes de conduzir esse debate de maneira racional, para que, ao fim e ao cabo, consigamos chegar a um consenso.;


Mangabeira aplicou o raciocínio aos negócios da empresa que representa, mostrando que os ambientes corporativos também são influenciados internamente pela reflexão. ;Conceitualmente, os outros são cada um de vocês, que saem de suas casas de manhã, com seu carro particular. Enquanto empresa, a Uber tenta entender o nosso ambiente humano como um ambiente congestionado. A cidade que queremos ver amanhã, temos que começar a construí-la hoje;, defendeu. ;Esse é um objetivo da Uber enquanto empresa: que os outros acabem vendo que é muito mais atraente a opção de acessar o artigo em vez de possuí-lo;, finalizou.

Tema oportuno

A presidente executiva do Instituto Palavra Aberta, Patricia Blanco, acredita que é necessário reafirmar a cultura do diálogo como fundamental para que o país evolua. Na avaliação dela, o debate político tem se transformado numa briga de torcidas, em que as pessoas chegam a perder amigos por não aceitar uma posição divergente. ;A liberdade de expressão exige que você aprenda a dialogar, a debater ideias e a aceitar ideias e posicionamentos que não são exatamente os seus;, afirma, em entrevista ao Correio.


Essa atitude, segundo ela, garante que ocorram avanços mesmo que não haja um consenso entre todos os envolvidos. ;Temos que parar um pouco, analisar o quanto estamos sendo intransigentes nesse poder de dialogar, e achar essa solução comum;, resume.










Para saber mais

Despersonalizar os debatedores

; O diálogo é discutir despersonalizando as figuras que discutem, que precisam se abrir ao universo da racionalidade argumentativa

Considerar os objetivos
; O diálogo visa a construção de novas ideias, o que exige pluralidade de opiniões durante o processo

Saber ouvir
; É preciso conhecer o outro, saber conversar, debater e explicar o próprio ponto de vista

Não ser irredutível
; Uma das possibilidades do debate é, inclusive, trocar de opinião e também não querer impor a própria vontade

Respeitar o raciocínio do outro
; O diálogo exige reconhecer a força e a pertinência do argumento do adversário

Fontes: Patricia Blanco, Eugênio Bucci e Adriano Ribeiro

  • Eugênio Bucci é jornalista, doutor pela Escola de Comunicações e Artes da USP, onde é professor associado (livre-docente) na graduação e na pós-graduação. Foi presidente da Radiobras de 2003 a 2007. É articulista de O Estado de S. Paulo e da revista Época. Recebeu o Prêmio Esso 2013 na categoria ;Melhor Contribuição à Imprensa; pela Revista de Jornalismo ESPM, da qual é diretor de Redação.





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