As mil e uma faces de Vera Holtz

As mil e uma faces de Vera Holtz

Em entrevista exclusiva ao Correio, a atriz fala sobre a identidade mágica que adota nas redes sociais, discute o panorama atual do teatro e revela a alma roqueira que a habita

» Diego Ponce de Leon
postado em 14/03/2016 00:00
 (foto: Instagram/Reprodução)
(foto: Instagram/Reprodução)



;Querer é poder, minha filha. Quer, realmente, ir? Pois, vá. Mas se vira!”. Assim, diante das palavras do pai, Vera Holtz se despediu da família e foi encarar o ofício do palco. ;Papai era um cara muito autoritário, mas promovia essa independência feminina;, comenta a artista, durante entrevista ao Correio.

De passagem por Brasília, onde se apresentou com o espetáculo Timon de Atenas, de Shakespeare, Vera recebeu a reportagem e, antes da conversa, foi presenteada com uma caixa de chá de boldo, uma alusão afetiva à série de fotos que a atriz publicou nas redes sociais durante o carnaval, e que a ratificaram como um dos nomes de maior repercussão na internet atualmente.

Artista múltipla, Vera sempre lembra que ;conhece todos os ângulos da profissão;. Foi diretora, assistente de direção, trabalhou com figurino, adereçaria, sonoplastia, vendeu ingressos e até fez figuração em ópera. Com mais de quatro décadas de carreira, atualmente leva o cênico para a plataforma digital, onde se define como ;misteriosa, mágica e feiticeira;.

Muito antes do virtual, da Mãe Lucinda de Avenida Brasil, da fogosa e retrógrada Marta de Presença de Anita, da Fanny de Que rei sou eu?, Vera desenhou mapas para o Instituto de Pesquisas Tecnológicas da Universidade de São Paulo (IPT). ;Sou formada em Artes Plásticas, enveredei pelo piano e pela música antes. O IPT ajudou a pagar as contas;, recorda-se. E, então, esbarrou com a atriz Myriam Muniz. ;Foi quando eu disse: ;Quero fazer isso;;. E o teatro, a televisão, a internet (e o boldo) nunca mais seriam os mesmos.



E o boldo? Tomando muito?
(risos)

Como surge a ideia por trás daquela
sessão de fotos que ;quebrou; a internet?

Eu não sou de revelar os bastidores, mas posso contar um pouco. Estava atrás da essência do carnaval. Eu, desde pequena, adoro carnaval. Confete e serpentina me acompanham desde a infância em Tatuí. Depois, fui para o Rio de Janeiro e convivi com o carnaval carioca. Também estive com espetáculo em Salvador, na época do carnaval, e conheci a festa baiana. E o que se repete todo dia? A bebedeira! (risos) E o boldo, portanto, torna-se a melhor forma de encarar a folia, a essência do carnaval. Além disso, a (atriz) Ângela Vieira, uma amiga com letra maiúscula, chegou lá em casa com um raminho de boldo, em um dia que eu estava passando meio mal. Ou seja, além de um bom remédio para o carnaval, o boldo também é um remédio afetivo.

Você se tornou uma referência nas redes sociais e,
atipicamente, por um conteúdo inteligente...

A coisa surge de forma lúdica. As redes são também pode ser uma plataforma de criação, de trabalhos autorais.

A Vera das redes é a mesma que
vemos nas telas e nos palcos?

É uma outra Vera. É uma outra entidade. (risos). Mais fechadona, mais mágica. Uma wizard (feiticeira, bruxa). Talvez, por isso, eu prefira manter o mistério sobre essas criações. A magia é um elemento muito convidativo.

Esperava tamanha repercussão,
principalmente junto aos jovens?

Eu não estava esperando nada. Eu trabalho com um produto muito popular, faço novelas. Então, há muito tempo, lido com repercussão. Não era isso. Queria realmente experimentar a plataforma, trabalhar com o autoral. E descobri que era possível utilizar aquele ambiente de maneira pessoal, com identidade própria. Algo genial.

E como tem sido protagonizar Timon de Atenas e
encenar Shakespeare pela primeira vez?

Eu já tinha feito leituras dramáticas, além do trabalho com Antônio Abujamra e a Cia. Fodidos Privilegiados, Um certo Hamlet. Mas é a primeira vez que subo ao palco com uma encenação de Shakespeare. Eu cheguei meio em cima da hora e perdi toda a parte da pesquisa, infelizmente. Não pude acompanhar o processo com Barbara Heliodora, que dirigiria o espetáculo inicialmente. Mas Bruce (Gomlevsky, o diretor) está fazendo um belo trabalho. Estamos ficando mais popular com o decorrer da temporada. A cada dia, uma nova camada, a gente vai se apaixonando pelas palavras, pela dramaturgia, a extensão que tem uma obra shakespeariana.

Falando em popular, o público do teatro diminuiu?

Eu costumo dizer que a tela mudou. Antigamente, buscávamos a tela grande e compartilhávamos essa tela. Hoje, ela cabe na palma da mão. Cada geração reflete o que deseja. Saímos de algo coletivo e passamos a levar a vida e os amigos no bolso. Acho que é só isso. Continua tendo muito teatro.

Você não compartilha dessa crítica de que só há comédia, musical...?
Não. É tudo reflexo do seu tempo. Eu não julgo. Na minha época, também tinha comédia, tinha teatro de revista. E temos um movimento potente hoje em dia. Muitos grupos, discussões sensacionais, intervenções urbanas, a arte performática, o experimentalismo, atores performáticos...muito desses debates chegando à academia. Um teatro muito vigoroso.

Não houve perda...

Talvez, o teatro comercial tenha acuado. Por conta das leis de incentivo, o valor do ingresso ficou muito baixo e não há como manter espetáculo ou companhia a partir do ingresso. Acabou o patrocínio, acabou o espetáculo. Eu fiz (a premiadíssima peça) Pérola de 1995 a 2000. Tivemos um apoio muito pequeno e levamos a partir da bilheteria. E todos vivemos bem. Por cinco anos, a equipe teve uma vida digna com o dinheiro do ingresso. Foram 800 apresentações. Era um mercado de trabalho ativo. Hoje, seria improvável.

Você comentou sobre as leis de incentivo.
Você tece críticas ao panorama político cultural?

É muito difícil eu me posicionar politicamente. Eu prefiro o mundo ficcional. Eu nasci no interior, então sempre estive envolta pelo universo imaginário, pelos processos criativos. O Timon de Atenas, de Shakespeare (que versa sobre a tomada do poder pelo povo), é uma obra bem posicionada. Através da arte, a gente também pode se posicionar diretamente. E assim prefiro.

A sua relação com os Irmãos Guimarães,
mais precisamente com Fernando, foi muito
producente. Pode nos recordar um pouco desse período?

Assim que o Fernando entrou na minha casa, eu soube que teríamos uma história a trilhar. Tanto que ele entra e sai somente 7 anos depois. (risos). Ao todo, são 12 anos de trabalhos juntos. Fiz muito Beckett com eles, viajamos bastante. O Fernando abriu todos os livros para mim. Ele pegou na minha mão e me levou. Abriu muito minha visão sobre artes plásticas, arte contemporânea, essa relação do plástico com o cênico. Tenho um carinho enorme por ele e pelo Adriano também.

Vivemos um período de ávidas discussões sobre feminismo,
racismo, diversidade, intoler

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