Sem rumo e sem tempo

Sem rumo e sem tempo

Marcelo Agner marceloagner.df@dabr.com.br
postado em 14/03/2016 00:00

Independentemente dos números finais da manifestação realizada ontem, que são significativos, está cada vez mais clara a intenção dos brasileiros de pressionar por mudanças radicais nos rumos do país. Esse recado vem sendo dado nas ruas há pelo menos dois anos, mas tanto o Palácio do Planalto quanto o Congresso preferiram interpretar a onda de protestos e panelaços como uma guerra ideológica, uma disputa de classes ou o choro de quem perdeu privilégios. Foi mais conveniente restringir a insatisfação aos ;coxinhas; do que assumir os problemas e debater a crise em que o Brasil mergulhou.

Pouco se avançou na discussão dos anseios e das reivindicações de parte expressiva da população. A presidente Dilma prometeu, em seu discurso de posse do segundo mandato, dialogar mais com a sociedade, mas em nenhum momento abriu espaço para esse entendimento. O país saiu claramente dividido das eleições de 2014, mas o PT preferiu acreditar que a regra do ;vencedor leva tudo; era suficiente para manter a hegemonia e governar de acordo com suas conveniências.

Deu certo nos dois primeiros mandatos de Lula e no começo da primeira gestão Dilma. A fórmula não funciona agora. Erros evidentes na condução da economia e da articulação política agravaram a crise. O brasileiro perdeu poder aquisitivo, a inflação disparou e o desemprego é um fantasma na vida de todo o cidadão. Nenhum governo resiste a esse quadro.

As investigações da Operação Lava-Jato foram devastadoras e abateram a reputação da maioria dos políticos que estiveram no comando do país nos últimos anos. O Planalto mergulhou num profundo imobilismo há mais de um ano e nem assim a presidente chamou o país para o diálogo. Pelo contrário. Optou-se pela arrogância, atacando as instituições, a oposição e grande parte da população. Justamente a que saiu às ruas ontem para pedir o impeachment da presidente.

Essa, sem dúvida, é a saída mais traumática para o Brasil. Melhor seria um grande entendimento nacional, mas não vejo disposição do governo e do PT de avançar nesse sentido. Tanto é assim que discute-se até a nomeação de Lula para um ministério, num desafio à Justiça e ao Ministério Público. Outro sinal evidente de que a arrogância ainda domina mentes e corações. Mesmo que, por milagre, o bom senso desça ao Planalto, temo que não haja mais tempo para um consenso.

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