As mulheres e a defesa

As mulheres e a defesa

» ANTONIO CARLOS ALVES COUTINHO Brigadeiro R1, presidente da Comissão de Gênero do Ministério da Defesa e coordenador de Ensino da Escola Superior de Guerra (ESG) - Câmpus Brasília
postado em 14/03/2016 00:00


Neste mês se comemorou o 8 de março ; Dia Internacional da Mulher. Datas são simbólicas, mas ajudam a reforçar uma mensagem. Há 20 anos, achava tolice dedicar um dia específico ao gênero feminino. Dez anos atrás, compreendi a importância de homenageá-las no 8 de março. A partir de 2013, percebi o desperdício de energia de falar às mulheres o quanto são importantes, de como merecem ser respeitadas, das suas qualidades e competências. Era pregar para convertidas. Desisti de fazer eventos para elas e passei a promover atividades com o grupo masculino.

Porque nos cinco continentes, nas classes socioeconômicas (chamadas) superiores, nas universidades renomadas, nas igrejas de todos os credos, nas instituições mais sérias e nos grupos mais vanguardistas, nós homens continuamos patrocinando desrespeito, praticando abusos e estimulando atitudes discriminatórias. Como está cada dia mais difícil explicar esses comportamentos, passamos a usar a criatividade para tentar justificar desvios e obstáculos erguidos.

Nas manchetes policiais: ;Matou a namorada por ciúme;, ;Estudante estuprada no câmpus usava minissaia;, ;Chacina na periferia com garotas de programa;. No trabalho: ;o cargo será preenchido por alguém com melhor perfil;, ;prefiro promover quem não corra risco de engravidar;, ;vejo que vocês (garotas) levam o trabalho a sério, mas deveriam também pensar em casar e ter filhos;. Nas redes sociais, imagens não autorizadas e assuntos privados, divulgados com maledicência, promovem linchamento público de mães, esposas, filhas e namoradas.

Quando, em setembro de 2014, a ONU lançou a campanha HeforShe, com a premissa de que igualdade de gênero não é tema exclusivo das mulheres e de que os esforços masculinos devem somar-se aos da outra metade da humanidade, para benefício de todos, ficou evidenciado o papel importante que cabe aos homens. Com essa motivação, a Comissão de Gênero do Ministério da Defesa, responsável por tratar do tema nas Forças Armadas brasileiras, vem analisando conceitos que devem ser desconstruídos e estudando modelos que merecem ser substituídos.

Vigor físico continua sendo requisito imprescindível à condição de militar, assim como perícia médica e avaliação psicológica, mas atributos cognitivos, psicomotor e afetivo ocupam espaços cada vez maiores no universo das exigências requeridas. Porque a guerra se modificou também. Os conflitos desenvolvem-se cada vez mais dentro de aglomerados urbanos, sem clara identificação do inimigo, com emprego de tecnologia sofisticada, cujo resultado efetivo depende tanto da neutralização de alvos e da conquista de áreas como do desdobramento político ou da opinião pública fomentada pela mídia.

Nesse cenário complexo, não há mais lugar para estereótipo que pretenda explicar determinada tarefa ser exclusividade de um só gênero. Podemos abusar da imaginação, mas vai ficar cada dia mais difícil encontrar argumento consistente para convencer que uma jovem não pode compor tripulação em navio, ser mecânica de aeronave ou tomar parte no grupo de forças especiais, apenas porque é mulher.

Assegurar a equidade de oportunidade para acesso a qualquer função, com imparcialidade, observando critérios técnicos definidos pelas Forças, sem discriminar gênero, não é somente uma questão de respeito às mulheres, revela-se essencial ao aprimoramento da instituição militar e ao consagrado princípio da meritocracia, que deve nortear o preenchimento de cargos públicos e postos na caserna.

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