Avaliação de danos em 140 caracteres

Avaliação de danos em 140 caracteres

Análise da distribuição de tuítes após desastres naturais consegue indicar áreas que sofreram mais danos , mostra estudo americano

postado em 14/03/2016 00:00


Uma análise da atividade do Twitter durante passagem do furacão Sandy pelos Estados Unidos, em 2012, sugere que a movimentação da mídia social, após a ocorrência de um evento climático extremo, é um indicador confiável da gravidade dos estragos. O estudo, publicado na edição mais recente da revista Science Advances, aponta a página de microblogs como uma ferramenta eficaz para avaliação preliminar de danos no período caótico imediatamente após um desastre natural. Em outras palavras, quando ainda é muito cedo para as autoridades apontarem com precisão os lugares mais prejudicados, recorrer à internet pode ser uma boa ideia.

;Quando o Furacão Sandy provocou a devastação que aconteceu nos EUA, nos perguntamos: ;Podemos usar nosso conhecimento de redes sociais e os dados fornecidos pelos usuários para entender o impacto econômico desse desastre?; Embora existam outros estudos que avaliaram o papel das redes sociais em desastres naturais, eles se concentraram em estudar o monitoramento e a detecção dos eventos ou a gestão dos esforços dos serviços de emergência. Queríamos algo diferente: saber em tempo real qual será o impacto econômico;, explica Esteban Moro, especialista em análise de dados e professor da Universidade Carlos III, de Madrid.

Para concluir que, sim, é possível, os pesquisadores recolheram todos os tuítes publicados sobre diferentes desastres naturais nos EUA e separaram aqueles com foco ou relacionados ao Furacão Sandy. ;Além disso, tivemos acesso aos dados de várias agências, como a Fema (Federal Emergency Management Agency), que recolheram fundos nos últimos anos para ajudar economicamente, em nível federal, vítimas de desastres ou financiar seguros e reivindicações;, prossegue Moro.

Com isso, a equipe soube o total de auxílios e de seguros recebidos por habitantes das diferentes áreas dos EUA devido ao Sandy. ;Estudamos os padrões do Twitter ; atividade, número de tuítes, sentimentos expressos nas mensagens ; para ver qual deles poderiam ser relacionados com o impacto econômico;, completa o cientista, que trabalhou com pesquisadores da Universidade da Califórnia, da Universidade Nacional Australiana e da Universidade de Michigan.

Os dados disponíveis apontam que Sandy causou danos de aproximadamente US$ 1,5 bilhão em todos os Estados Unidos. A comparação dos tuítes com os dados colhidos com as agências revelou uma grande relação entre o número de postagens e o prejuízo ocorrido em cada região. Os estados de Nova Jersey e de Nova York, os mais atingidos, também deram origem à maior quantidade de mensagens na rede social durante e após o furacão.

;O principal resultado da pesquisa é observarmos uma correlação significativa entre a atividade (número de mensagens por habitante) e o impacto econômico (per capita) do desastre. Mas, talvez, o mais importante dessa descoberta é que essa correlação pode ser obtida poucos dias depois da ocorrência do desastre;, ressalta Moro. ;Com pouco custo, seria viável obter uma estimativa do impacto econômico do furacão em cada localidade. Isso se repete em outros desastres naturais para os quais temos dados ; terremotos, inundações, tornados, tempestades, deslizamentos de terra etc.;

No Brasil

O responsável pela emissão de dados sobre desastres naturais no Brasil é o Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), núcleo vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Segundo Éber José dos Santos, secretário executivo da Secretaria Executiva da Coordenação de Relações Institucionais do Cemaden, o centro utiliza as redes sociais em seu trabalho de acompanhamento.

;Qualquer fonte de informação sobre o que está acontecendo em áreas de risco ou em suas proximidades é útil e relevante para subsidiar a equipe responsável pelo monitoramento e alertas. Entre essas fontes, podemos citar as mídias sociais, sendo a principal delas o Twitter;, explica Santos. O Cemaden adota um mecanismo automático de busca, que reporta mensagens que contemplam palavras como ;temporal;, ;alagamento; ou ;deslizamento;. ;Essas informações fornecem mais detalhes sobre os cenários que se estabelecem em determinado município;, completa.

Esteban Moro concorda que as redes sociais podem cumprir esse papel. ;Com a mudança climática, no futuro, tais episódios serão cada vez mais frequentes. Nossa pesquisa pode servir como um ponto de partida para o uso das redes sociais nessas situações;, acredita.

Éber dos Santos enxerga o estudo norte-americano como um novo horizonte para pesquisas no Brasil. ;Esse estudo pode incentivar pesquisadores e tecnologistas do centro a ampliar o uso das redes sociais para melhor entender outras questões relacionadas aos desastres naturais nos municípios brasileiros, seja do ponto de vista dos processos naturais, como chuva, inundações, movimentos de massa, seja no que concerne aos impactos socioambientais associados.;

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