Unidos contra o feminicídio

Unidos contra o feminicídio

Manifestações, atos de repúdio e debates movimentarão a Universidade de Brasília (UnB), local onde universitária de 20 anos morreu assassinada na última quinta-feira. As discussões também chamarão a atenção para a insegurança dentro do câmpus

NATHÁLIA CARDIM
postado em 14/03/2016 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)







Em menos de 48 horas, entre quinta-feira e sábado, dois crimes bárbaros chocaram os brasilienses. Os homicídios de Louise Maria da Silva Ribeiro, 20 anos, na Universidade de Brasília (UnB), e de Jane Carla Fernandes Cunha, também de 20, em Samambaia, trouxeram à tona a importância das discussões sobre a violência contra a mulher e o crescimento de casos de feminicídio na capital, além da questão sobre a segurança no câmpus. O ex-namorado de Louise Vinícius Neres, 19, assassino confesso, foi levado ontem para o Complexo Penitenciário da Papuda. No caso de Jane, morta por Jonathan Pereira Alves, 23, o assassino cometeu suicídio depois de matar a ex-namorada.

Para reacender a discussão do desrespeito ao gênero e prestar homenagens à jovem estudante morta no Laboratório de Anatomia do Instituto de Ciências Biológicas (IB), pelo menos quatro manifestações e rodas de conversa estão previstas para a semana (leia Programe-se). Um protesto oficial de repúdio à violência foi convocado para hoje, às 15h30. O evento deve ocupar o Teatro de Arena do Câmpus Darcy Ribeiro, na Asa Norte ; a UnB é responsável pela convocação. A ideia é de que toda a comunidade acadêmica se una em uma homenagem a Louise, assassinada na noite de quinta-feira. Também devem participar do evento representantes da ONU Mulheres Brasil.

A diretora do IB, Andréa Maranhão, disse que o objetivo do ato de repúdio é reunir as pessoas que gostavam da Louise para celebrar a vida dela. ;Vamos reiterar a indignação e o pesar pela morte violenta da nossa aluna. Queremos estar juntos das pessoas que tanto gostavam dela. Como o pai da jovem mesmo disse, ela amava a UnB e merece essa homenagem. É claro que queremos segurança sempre, mas o que aconteceu independe da questão de insegurança. É um ato violento praticado por uma pessoa que estava insana;, explicou.

Pesquisadora do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero da UnB, Débora Diniz ponderou a necessidade de a instituição abrir a discussão sobre a segurança no câmpus e evidenciou a urgência de se discutir crimes ligados a questões de gênero. Ela definiu a morte da jovem como uma tragédia. ;Não temos nenhuma dúvida de que o crime é classificado como feminicídio. Não importa agora saber se a vítima tinha ou não um relacionamento com o assassino. Em vez de pensarmos em uma discussão sobre histórias amorosas, sabemos que se trata de um homem que matou uma mulher, apenas por uma desilusão;, disse.

Para ela, é preciso tomar iniciativas efetivas de segurança. ;O que me interessa neste momento é saber qual é o papel que a universidade pública pode assumir a partir de agora. Temos de pensar como poderemos encontrar, urgentemente, medidas de esclarecimento e de prevenção para que outros casos trágicos não ocorram. Sem esquecer o que aconteceu, precisamos olhar para a frente e agir. Estudantes, professores e servidores necessitam de segurança;, defendeu.

Débora fez um manifesto em favor de Louise nas redes sociais, com mais de 6 mil acessos. No vídeo, a professora explica que, entre 2006 e 2011, uma em cada três mulheres vítimas de mortes violentas sofreram feminicídio e 80% das vítimas morreram por ataques de namorados e ex-companheiros. Ela classificou o vídeo como grito de luto e de mulheres indignadas com a persistência desse tipo de crime na sociedade brasileira. Os dados apresentados por Débora são de pesquisa que analisou laudos cadavéricos e processos judiciais dos assassinatos de mulheres ocorridos no DF naquele período. O estudo foi publicado em 2015 pelo Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

Segundo a professora de antropologia e ativista do Fórum de Mulheres do DF Lia Zanotta Machado, o assassinato de Louise confirma a importância de incluir a discussão dessa problemática nas salas de aula. ;A questão do momento de separação não ser aceita por homens é uma das circunstâncias que aumentam a violência contra a mulher;, analisou. Ela acredita que o crime pode ter sido premeditado. ;Ele sabia o que queria fazer. A fúria era uma raiva antiga pelo fato de ela tê-lo deixado, em função do pensamento de que ele deveria ter a posse dela. Para ele, a jovem não tinha condições de ter uma vida independente e feliz se não fosse com ele.;

Sobre o fato de o crime ter ocorrido no câmpus, a professora disse que não dá para culpar só a UnB. ;Existe um problema de segurança pública. Os recursos financeiros e as propostas políticas não são suficientes para resolver a questão. O importante agora é reivindicar policiamento e mais iluminação no espaço acadêmico;, defendeu.

O último balanço do Ligue 180 (veja Disque-Denúncia), divulgado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, mostrou que o DF apareceu como a unidade da Federação com a maior taxa de relatos de violência na Central de Atendimento à Mulher no ano passado.O serviço realizou 749.024 atendimentos no país. Essa quantidade foi 54,40% superior aos dados de 2014 (485.105).


Programe-se

Homenagem à Louise, pela paz e
contra a violência dirigida a mulheres


Onde: Instituto de Ciências
Biológicas da UnB
Quando: hoje
Horário: às 10h

Roda de Conversa: Louise,
feminicídio e segurança na UnB

Onde: Instituto Central de
Ciências Norte (ICC Norte)
Quando: hoje
Horário: às 12h30

Ato contra a violência em
homenagem à estudante Louise Maria

Onde: Teatro de Arena, no
Câmpus Darcy Ribeiro (Asa Norte)
Quando: hoje
Horário: às 15h30

Segurança na UnB
violência nunca mais

Onde: Instituto Central de
Ciências Norte UnB (ICC Norte)
Quando: amanhã
Horário: às 12h


Disque-denúncia

Em março de 2014, o Ligue 180 assumiu a atribuição de disque denúncia e passou a acumular as funções de acolhimento e orientação da mulher em situação de violência, com a tarefa de enviar os casos de violência aos órgãos competentes pela investigação (com a autorização das usuárias). Desde então, foram realizadas 65.391 denúncias, encaminhadas a órgãos da segurança pública, sistema de justiça, direitos humanos e assistência consular. A ligação é gratuita, disponível 24 horas, todos os dias da semana.



Memória

2015


Em 18 de junho, a adolescente Emilly Cristiny da Silva, 14 anos, foi encontrada morta no Parque Lago do Cortado, em Taguatinga Norte. Ela estava com os pés e as mãos amarrados, além de apresentar sinais de traumatismo craniano e de vio

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