Dez encontros com Cunha

Dez encontros com Cunha

Em depoimento na Comissão de Ética, Fernando Baiano diz que teve mais de dez encontros com o presidente da Câmara

Guilherme Waltenberg especial para o Correio
postado em 27/04/2016 00:00
 (foto: Ricardo Botelho/Folhapress)
(foto: Ricardo Botelho/Folhapress)


O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), bem que tentou impedir o lobista Fernando Antônio Falcão Soares, o Fernando Baiano, de prestar depoimento na Comissão de Ética ; que investiga o deputado por quebra de decoro parlamentar. Mas o depoimento foi realizado na tarde de ontem e o lobista detalhou não apenas a entrega de R$ 4 milhões em propina ao deputado, como também contradisse a declaração de Cunha de que jamais teria encontrado o lobista. Segundo ele, foram ao menos 10 encontros, entre idas e vindas nos escritórios do deputado, no seu gabinete e até mesmo em sua casa.

Mesmo sem provas documentais desses encontros, Baiano detalhou, por exemplo, a entrada da casa de Cunha. Segundo ele, seus encontros eram feitos no escritório caseiro do deputado, ;em uma porta logo à esquerda da porta de entrada;. Em Brasília, por outro lado, os encontros no gabinete eram marcados como sendo um café entre os dois. Mas a entrega de dinheiro, conforme Baiano, era feita no escritório de Cunha no centro do Rio de Janeiro.

Os valores eram entregues a um auxiliar do presidente da Câmara, supostamente designado por ele mesmo. Foram diversos pagamentos totalizando R$ 4 milhões. Todos feitos em espécie. Baiano foi questionado sobre detalhes dessas entregas pelos deputados presentes na comissão.

Os questionamentos geraram a reação do advogado de Cunha, Marcelo Nobre, presente na reunião. Segundo ele, os assuntos não tinham a ver com o ;objeto da causa;, que é a existência ou não de contas do parlamentar no exterior ; fato que Cunha negou no ano passado em depoimento espontâneo para a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Petrobras.

Baiano negou ter feito quaisquer repasses a Cunha via contas no exterior. Reiterou diversas vezes que o pagamento era feito em dinheiro para pessoas indicadas pelo deputado. Entre essas pessoas, ele citou um homem chamado Altair, mas não soube dizer qual o seu sobrenome ou o seu cargo na equipe de Cunha. ;Não tenho a memória tão boa;, justificou em trecho do depoimento.

Baiano contou que conheceu Cunha durante um café da manhã em 2009. Na ocasião, os dois trocaram contatos e voltaram a se falar logo depois. A relação entre ambos teria partido de Baiano, que pediu ao deputado intermediação para receber uma dívida de US$ 18 milhões devida pelo também lobista Júlio Camargo.

O combinado inicial era que Cunha ficaria com 20% do total, que foi aumentado para 50%. ;Já não tinha esperanças de receber o dinheiro;, justificou Baiano. Como instrumento para pressionar o lobista, Cunha usaria a comissão de fiscalização para pressionar contratos de Camargo com a Petrobras. A pressão deu certo e os pagamentos começaram a ser feitos.

A assessoria de imprensa de Cunha rebateu o depoimento de Baiano dizendo que se trata de ;alegação antiga, sem provas, que integra a denúncia do STF e foi desmentida com contundência pela defesa do deputado;.




"Alegação antiga, sem provas, que integra a denúncia do STF e foi desmentida com contundência pela defesa do deputado"
Trecho de nota distribuída pela assessoria de Eduardo Cunha

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