A crise e o mercado de trabalho

A crise e o mercado de trabalho

» ARMANDO CASTELAR Coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV) e professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ)
postado em 27/04/2016 00:00



Os economistas usam duas regras gerais para prever o impacto do nível de atividade sobre o mercado de trabalho. Uma ocorre com certa defasagem, algo como um semestre. Outra, que o emprego varia menos que a atividade: para uma variação de 1% na produção, o nível de emprego deveria mudar na faixa de 0,5%. Obviamente, essas são regras muito aproximadas. Ainda assim, o fato de que até recentemente o mercado de trabalho se comportou ao contrário do que elas preveem deixava os economistas desorientados. Por exemplo, em 2014, quando o PIB cresceu apenas 0,1%, a população ocupada aumentou 1,5% e o rendimento real 1,1%, enquanto a taxa de desocupação caiu para 6,8%, ante 7,1% em 2013.

Os indicadores de trabalho pioraram em 2015: ainda considerando a média anual e os dados da Pnad-Contínua, vê-se que a população ocupada ficou estável e o rendimento real caiu 0,3%. Foi o pior resultado dos últimos anos, mas bem melhor do que seria de se esperar, dado que o PIB caiu 3,8%. Mais recentemente, porém, esse quadro começou a mudar. Na comparação do trimestre de dezembro/2015 a fevereiro/2016 com igual período um ano antes se vê que a população ocupada caiu 1,3% e o rendimento real, 3,9%, ao passo que a taxa de desocupação teve forte alta, de 7,4% para 10,2%.

A qualidade dos postos de trabalho também piorou, com queda de 3,8%, ou 1,4 milhão de vagas, no número de empregados no setor privado com carteira assinada. Também caiu o número de empregados no setor privado sem carteira de trabalho (-493 mil), pessoas ocupadas auxiliando outro membro do domicílio no seu trabalho (-437 mil), empregados no setor público (-345 mil) e empregadores (-215 mil). Essas quedas foram parcialmente compensadas pelo maior número de pessoas trabalhando como domésticos (+165 mil) e por conta própria (+1,5 milhão).

Essa recomposição da população ocupada ajuda a explicar a queda de rendimentos, pois os trabalhadores domésticos e por conta própria em geral ganham abaixo da média do mercado. Além disso, o fato de ter mais gente trabalhando por conta própria explica em parte a queda real de 6,6% no rendimento desse tipo de ocupação, na comparação anual. É difícil dizer por que a situação do mercado de trabalho piorou tanto no passado recente. Há duas hipóteses principais. Uma, que as empresas desistiram de manter seus empregados, apesar da queda de produção, como vinham fazendo. Isso pode ter ocorrido porque as expectativas de uma recuperação econômica pioraram, porque diminuiu o receio de não ser possível achar bons trabalhadores no mercado, ou porque a situação financeira das empresas piorou tanto que elas quebraram ou não puderam manter a folha de salários.

Outra explicação é que só mais recentemente os setores intensivos em mão de obra tiveram deterioração significativa do nível de atividade. De fato, setores como construção, comércio e transporte, além da indústria de transformação, puxaram a queda do PIB em 2015. A evidência da Pnad-Contínua é mais consistente com a primeira do que a segunda hipótese. Isso devido à forte e continuada queda no número de empregados no setor privado e de empregadores, que é consistente com a ideia de que há muitas firmas desempregando ou fechando. Além disso, a redução na geração de postos de trabalho se concentrou em dois setores: indústria geral (-1,4 milhão) e informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas (-809 mil). Ambos os setores tinham sido geradores líquidos de postos de trabalho na soma dos quatro trimestres anteriores.

Surpreende que a população ocupada aumentou ou permaneceu estável na construção, no comércio, no transporte e em outros serviços. Isso pode refletir o fato de que esses são setores para os quais é mais provável que os trabalhadores por conta própria tenham se deslocado. O que bate com a observação de que neles, exceto por construção, a queda do rendimento real superou a média do mercado. Além disso, em geral os rendimentos são mais baixos nesses setores, de forma que o seu melhor desempenho em termos de emprego puxou o rendimento real para baixo. Com a previsão de queda acumulada do PIB de 7,3% em 2014-16, o emprego e o rendimento real vão cair mais no resto de 2016 e provavelmente em 2017, com consequências ruins sobre os indicadores de pobreza e desigualdade. Também por isso não se deve procrastinar em estancar a crise econômica.

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