Cinco décadas de clássicos

Cinco décadas de clássicos

Discos celebrados da MPB - como o primeiro de Chico Buarque e LPs de Elis Regina, Jackson do Pandeiro, Vinicius de Moraes e Baden Powell - completam 50 anos

» Alexandre de Paula Especial para o Correio
postado em 27/04/2016 00:00
 (foto: André Corrêa/CB/D.A Press-27/10/94)
(foto: André Corrêa/CB/D.A Press-27/10/94)

Foi Toquinho quem convenceu o produtor musical Manoel Barenbein a se encontrar com o jovem Francisco. ;Você precisa conhecer o Chico carioca;, dizia o cantor. Barenbein foi com o amigo encontrar o tal rapaz, em uma tarde de 1965, no bar Sem Nome, na rua Dr. Vila Nova, em São Paulo. Enquanto a cerveja gelada descia no espaço repleto de estudantes da Mackenzie e da USP (universidades que ficavam nos arredores), Chico Buarque dedilhava o violão e cantava. ;À medida que ele ia tocando, eu ficava mais entusiasmado com aquilo que estava vendo;, lembra Barenbein. O produtor, mesmo sem ter autonomia para tanto dentro da gravadora, ofereceu a Chico a possibilidade de gravar um LP. O jovem ficou relutante. O tempo passou. Mas em 1966, A banda estourou no festival da Música Popular Brasileira e já não dava mais para esperar. Há 50 anos, num domingo, o menino de 22 anos entrava, enfim, no estúdio para registrar clássicos, como Pedro, pedreiro e Olê, olá no LP Chico Buarque de Hollanda.

;Com o Chico era fácil de trabalhar porque, como bom compositor, ela já tinha no violão o que seriam os arranjos. Você conversava com ele e as coisas fluíam tranquilamente;, lembra o produtor. Barenbein acredita que esse o disco do compositor em que a simplicidade está mais presente. ;Você tem melodias perfeitas com letras fundamentais, acompanhadas por um arranjo que está ali apenas para emoldurar isso;, explica.

;Nele já percebemos o germe do grande criador que viria a ser. A delicadeza e profundidade com que lida com temas cotidianos, a sua rara habilidade de expressar o sentimento feminino e as suas construções melódicas, sempre tão complexas, mas sempre fáceis de serem cantadas;, acredita o professor de história da música popular brasileira da Universidade de São Paulo Ivan Vilela. Para ele, Chico conseguiu construir uma obra em que não houvesse canções ruins. ;Todas as músicas presentes em seus discos são excelentes.;

Embora o compositor já mostrasse a que veio no primeiro disco, Vilela acredita que o cantor ainda estava ligado à corrente do samba e buscando um caminho próprio, que seria encontrado, para o professor, em Construção (1972). ;Percebemos neste primeiro disco uma manutenção da música popular como cronista de seu tempo, dos acontecimentos de seu tempo. Um Chico ainda fazendo uma continuidade da obra de autores como Noel Rosa;, explica.

Cinquenta anos depois, é difícil alguém não conhecer a capa do disco. Com a imagem de Chico sorridente de um lado e com a cara fechada no outro, a arte virou febre na internet e se transformou em um meme bastante utilizado.

Saravá, afrossambas!
Foi em 1966 também que a parceria do poeta Vinicius de Moraes e do violonista Baden Powell se tornou disco. Com influências africanas, os dois lançaram Os afro-sambas. O álbum, que faz 50 anos em 2016, consolidou a mistura dos cantos e batuques afro/umbandistas com a música brasileira. ;Eles estabelecem o conceito de modernização da canção afro-brasileira, por isso o disco é um marco e um divisor de águas neste processo;, explica o historiador e pesquisador da história da MPB Luiz Americo Lisboa Junior.

Os dois já demostravam interesse pela cultura africana e suas relações com o Brasil antes de produzirem o disco, mas foi a junção das letras de Vinicius com a música de Baden que levou à criação de um dos clássicos da música brasileira. ;O poeta já manifestava esse interesse desde que escreveu a peça Orfeu do carnaval, portanto, estava aberto a ampliar seus conhecimentos na área, e Baden foi o elo que faltava para fixar nele as bases conceituais e místicas de sua poesia de características afro-brasileiras;, comenta o historiador.

Apesar da importância da criação, o violonista recusou alguns dos afrossambas, pouco antes de morrer em 2000. Convertido ao protetanstimo, Baden disse que não gravaria mais canções ; como o Samba da bênção ; por contrariarem as crenças que passou a seguir.

A intérprete do novo
Apesar de ter começado a carreira no início da década de 1960, foi com o lançamento de Elis (1966) que a cantora se consolidou com a intérprete que levaria ao público músicas de grandes compositores brasileiros. ;Ela se coloca nesse disco como a mais expressiva intérprete de autores novos, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Marcos e Paulo Sergio Valle, Edu Lobo e Milton Nascimento;, afirma o professor Ivan Vilela.

O professor explica que Elis se tornou a principal responsável de lançamento e pela valorização de novos compositores logo que começou a ter grande exposição como cantora. A linguagem desses novos autores ajudou a manter a jovialidade da obra de Elis. ;Ela conseguiu manter um frescor de sua obra e uma singular capacidade interpretativa que a coloca, a meu ver, como a maior intérprete da moderna Música popular Brasileira;, comenta.

No álbum de 1966, a cantora gravou músicas dos então jovens Chico Buarque e Milton Nascimento, apresentados a ela por Edu Lobo (que teve três canções interpretados no disco).

O mestre dos ritmos
;Costumo sempre dizer que o Gonzagão é o Pelé da música e o Jackson, o Garrincha;, disse o cantor Alceu Valença em uma de suas entrevistas. Mestre da mistura de ritmos, Jackson do Pandeiro é outra lenda da música brasileira que lançou um disco há 50 anos, O cabra da peste.

;Forró quentinho, que dança gostosa/ É Bossa Nova lá no meu Sertão/ Ele é parente da Rumba e do Mambo, /E é bem parecido com Samba e Baião;, diz a letra de Forró quentinho, uma das faixas do álbum que representa bem o estilo do cantor com a fusão entre gêneros.

Jackson do Pandeiro inovou ao misturar a embolada (estilo que valoriza o ritmo a fala) com a MPB. ;Ele acrescentou à poesia da música popular, sempre rimada e metrificada novos horizontes e liberdades de uso dessa fala. Seria difícil pensar em Djavan ou Lenine sem nos reportarmos ao Jackson;, explica o professor Ivan Vilela.

Duas perguntas / Ivan Vilela
Por que ouvir esses discos hoje?
Porque é fundamental que sempre nos refiramos às nossas raízes, ou aos primeiros que definiram tendências e caminhos. E também porque suas obras são absolutamente atuais e contemporâneas e ainda hoje nos tem muito a dizer.

Pode-se dizer que esses foram alguns dos discos que ajudaram a começar a MPB?
Depende do que você entende por MPB. Acho que não. Costumo pensar a MPB como toda a música produzida em território nacional, daí, já veremos os germes desta canção urbana, síntese de muitas musicalidades rurais e urbanas sendo sintetizada a partir dos anos 1880 com o surgimento do Choro no Rio de Janeiro, então Capital Federal. Se olharmos as transformações ocorridas na MPB desde os nos 1920, observaremos que há uma apropriação constante do velho pelo novo. Os movimentos que se suc ederam foram

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