Senhor dos alfinetes

Senhor dos alfinetes

PAULO DE TARSO LYRA paulodetarso.df@dabr.com.br
postado em 20/05/2016 00:00
Foi uma longa sessão, na qual o presidente afastado da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) jurou de pés juntos, perante o Conselho de Ética da Câmara, que não indicou um alfinete para o governo Temer e que, tampouco, manipula o movimento de parlamentares ligados a ele. Como ele também nega, peremptoriamente, ter participado do petrolão, tentado obstruir a Justiça e ter contas na Suíça no valor de US$ 5 milhões, torna-se pouco crível que ele não tenha participado da escolha de André Moura (PSC-SE) para a liderança do governo na Câmara e teleguiado os últimos passos do presidente interino da Casa, Waldir Maranhão (PP-MA).

Cunha sabe jogar xadrez. E sabe muito bem a hora de atacar e a de se defender. Golpeado pela unanimidade do pleno do Supremo Tribunal Federal há exatos 15 dias, o maquiavélico peemedebista moveu as peças no tabuleiro e voltou a uma posição confortável ; embora ainda muito delicada ; na batalha para adiar o próprio xeque-mate.

Quatro dias após o STF lhe ter imposto uma quarentena punitiva, Cunha viu, do conforto da residência oficial de presidente da Câmara, Maranhão anular, por decisão inesperada e intempestiva, a sessão que aprovara, em 17 de abril, a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O pepista recuou no mesmo dia, causou uma balbúrdia e, agora, ele próprio está ameaçado de cassação.

Enquanto os parlamentares tacam pedras em Maranhão, Cunha fica quieto, sem ser apedrejado, porque, em tese, não é mais presidente da Casa, embora continue usufruindo dos poderes presidenciais. ;Tem mais gente despachando com ele na residência oficial do que com o Maranhão;, exasperou-se o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA).

Com a nomeação de Moura para líder do governo, com o apoio de algo entre 216 e 300 deputados, Cunha mostra que ainda tem base confortável a segui-lo mentalmente no parlamento. Não é pouca coisa. Com voto aberto em pleno ano eleitoral, Cunha deve ser cassado. Isso se a punição mais rigorosa não for barrada no Conselho de Ética e substituída por uma sanção mais branda, a ser apreciada por esse plenário de alfinetes que ainda ama ; ou teme ; o inquebrantável Eduardo Cunha.

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