Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 16/06/2016 00:00

Respeito a Niemeyer

O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) apresentou denúncia criminal contra o arquiteto Oscar Niemeyer, em 2014. Detalhe: Niemeyer havia morrido em 2012. O promotor responsável pelo caso argumentou: ;Foi um mero equívoco, uma bobagem, e que foi rapidamente corrigida;.

De fato, foi um pequeno deslize, mas um deslize revelador do desconhecimento tanto sobre Oscar Niemeyer quanto das relações entre a arquitetura moderna e a engenharia. O MPDFT acusa a empresa Arquitetura e Urbanismo Oscar Niemeyer Ltda. de cometer irregularidades na construção da Torre Digital, a última obra de Niemeyer inaugurada em Brasília.

A lei da licitações para construção de edifícios públicos é igual para todos. Mesmo assim, ela é obrigada a render-se ao talento e abrir uma exceção. A concorrência pública para projetos arquitetônicos dispensa licitação em caso de ;profissionais com notória especialização;. E esse é, evidentemente, o caso de Niemeyer, um dos mais importantes arquitetos modernos.

No entanto, o MPDFT acusa a empresa de Niemeyer de contratar sem licitação os serviços de engenharia e de beneficiar-se com o contrato firmado com o GDF. O problema é que todos os edifícios de Niemeyer em Brasília foram construídos segundo o modelo de ;contratação casada de arquitetura e engenharia;.

Os monumentos provocaram espanto mundial, não apenas pela beleza de suas curvas barrocas, mas também pela tecnologia das construções, com o equilíbrio delicado e os grandes voos de imaginação, que parecem desafiar a lei da gravidade. É o que podemos apreciar no Palácio da Alvorada, na Catedral Metropolitana de Brasília, no Palácio do Planalto, nas duas cúpulas invertidas do Congresso Nacional, no Tribunal de Justiça, nas escadarias em curvas rasantes ou nos grandes vãos do Palácio do Itamaraty.

Os palácios que parecem flutuar no espaço só foram possíveis graças à parceria entre arquitetura e engenharia. Quando Niemeyer apresentou pela primeira vez os seus desenhos aos engenheiros convencionais, eles sentenciaram que seria impossível transformar aqueles croquis em edifícios sólidos e seguros. Ele encontrou a parceira perfeita na personalidade singular do engenheiro calculista Joaquim Cardozo, que tinha uma cabeça de poeta.

Cada desenho do arquiteto era um desafio que ele tentava resolver como se fosse encontrar a fórmula ideal de um poema: ;As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias;, dizia Cardozo: ;Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia;. Com a morte de Cardozo, Niemeyer firmou longa e fértil parceria com o engenheiro calculista José Carlos Sussekind.

A denúncia do MP revela desconhecimento elementar sobre as relações entre arquitetura moderna e engenharia. Nós, os brasileiros, costumamos tratar nossos gênios a pauladas. A lista é grande: Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, Glauber Rocha, Oswald de Andrade, Augusto dos Anjos e Tom Jobim. Por tudo que fez pelo Brasil, Oscar Niemeyer merece mais respeito.

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