Assassinato político

Assassinato político

Deputada trabalhista e pró-União Europeia é morta a tiros e facadas na reta final para a votação que decidirá sobre a permanência do país no bloco. Autor do ataque teria gritado "Grã-Bretanha primeiro"

Gabriela Walker
postado em 17/06/2016 00:00
 (foto: Daniel Leal-Olivas/AFP)
(foto: Daniel Leal-Olivas/AFP)







O assassinato da parlamentar trabalhista Jo Cox, considerada uma estrela em ascensão do partido, chocou o Reino Unido ontem. Cox foi atacada a tiros e facadas por um homem identificado como Thomas Mair, 52 anos, que, segundo duas testemunhas, gritou ;Grã-Bretanha primeiro; antes de agredi-la. O ataque ocorreu a exatamente uma semana do referendo que decidirá o futuro do país na União Europeia e pode ter sido motivado pela posição política da parlamentar, que defendia a permanência no bloco.

Cox saía de uma reunião com eleitores em uma biblioteca pública na cidade de Bristall, em West Yorkshire, quando foi surpreendida por Mair, poucos minutos antes das 13h (9h, em Brasília). ;Ele atirou contra ela e depois atirou outra vez. Ele caiu no chão, se inclinou e atirou mais uma vez contra ela, no rosto;, contou Clarke Rothwell, dono de um café próximo à biblioteca. ;Alguém tentou segurá-lo, lutando com ele, e então ele pegou uma faca, como uma faca de caça, e começou a atacá-la com a faca meia dúzia de vezes;, acrescentou.

Uma ambulância aérea levou Cox ao Leeds General Infirmary, mas ela não resistiu aos ferimentos e foi declarada morta às 13h48. Dee Collins, chefe temporária da polícia de West Yorkshire, informou que um homem de 77 anos foi também ferido pelo agressor, mas não corria riscos. Ela destacou que, inicialmente, os investigadores não buscam nenhum outro suspeito.

;Não estamos na posição de discutir nenhum motivo, no momento;, completou Collins, rejeitando comentar se houve impulso político no ataque. Cox é a primeira parlamentar assassinada durante o mandato desde 1990, quando Ian Gow foi morto por militantes de um grupo separatista da Irlanda no Norte.

O viúvo Brendan, que tem dois filhos com a deputada, divulgou comunicado no qual destacou que o ;ódio não tem crença, raça ou religião, é venenoso;. Ele pediu às pessoas que se unam ;para lutar contra o ódio que a matou;.

O primeiro-ministro David Cameron cancelou um evento em Gibraltar e voltou para Londres. ;É uma notícia absolutamente trágica e horrível. Perdemos uma grande estrela;, lamentou. A secretária do Interior, Theresa May, descreveu Cox como uma das deputadas ;mais brilhantes e populares; do país.

Parlamentares de todos os partidos lamentaram a morte e lembraram com carinho e admiração a colega. O líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, descreveu-a como uma ;muito amada; e disse estar ;extremamente chocado; com o crime. ;Jo morreu exercendo o dever público, no coração da nossa democracia. Ouvindo e representando as pessoas que foi eleita para servir;, disse. ;Nos próximos dias, haverá perguntas a serem respondidas sobre como e por que ela morreu;, acrescentou.

Brexit
As campanhas para o referendo da próxima quinta-feira foram interrompidas em respeito a Cox. O impacto que o crime pode ter na consulta popular ainda não está claro, mas analistas indicam que a tragédia pode ter peso positivo para as forças pró-União Europeia, que, segundo pesquisas recentes, estão em desvantagem.

;Qualquer tragédia tem forte impacto na opinião pública;, ressalta Estevão Martins, especialista em estudos europeus da Universidade de Brasília (UnB). ;O debate sobre o Brexit é muito mais emocional do que técnico. Os líderes dos dois lados vão tentar capitalizar a situação, e tudo vai depender de como vão explorá-la e do que o indivíduo que perpetrou o ato possa vir a falar;, explica.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou ontem os britânicos de que eventual saída da UE afetará os mercados e dificultará o crescimento econômico. Representantes do fundo decidiram adiar a divulgação de um relatório sobre o impacto da saída, em respeito à deputada. A empresa BMG, que publicaria hoje uma pesquisa de opinião sobre o referendo, seguiu a mesma linha e informou que deve postergar a divulgação por 24 horas.


Perfis

Militância
humanitária


Helen Joanne ;Jo; Cox era uma das políticas mais promissoras do Partido Trabalhista para os próximos anos. Vista pelos correligionários como uma mulher dedicada, inteligente e comprometida, foi eleita em 2015 para a Câmara dos Comuns. A vida política foi precedida por um amplo trabalho em países em desenvolvimento. Jo foi diretora da ONG humanitária Oxfam, liderou uma campanha contra mortalidade materna lançada por Sarah Brown, mulher do ex-premiê Gordon Brown, foi membro das ONGs Save the Children e NSPCC e fundadora da UK Women.

Como parlamentar, ficou conhecida pela crítica apaixonada à resposta do Reino Unido e da União Europeia à guerra civil na Síria. Defendeu o acolhimento dos refugiados e se referiu à crise migratória como ;o teste desta geração;, ao cobrar dos colegas parlamentares engajamento político contra o horror vivido pela população síria. Jo era vista como uma feminista moderna e reivindicou os direitos femininos ao redor do mundo. Também se dedicou com afinco à campanha contra a saída do Reino Unido da União Europeia, o que pode motivado o assassino.

Filha de uma família de classe média ; a mãe, Jean, era secretária de uma escola, e o pai, Gordon, trabalhava em uma fábrica de pastas de dentes e sprays de cabelo ;, Jo estudou em Cambridge, onde ingressou na militância política trabalhista.

O atentado fatal a surpreendeu poucos dias antes do 42; aniversário. Jo era casada com Brendan Cox, ativista social e ex-assessor de Brown, com quem teve um filho e uma filha, de 3 e 5 anos. A família vivia em uma casa-barco no Rio Tâmisa e planejava uma recepção para 100 neste fim de semana, para celebrar o solstício de verão.


Solitário
e recluso


A prisão de Thomas Mair deixou conhecidos e familiares em choque. Descrito como um homem solitário, que passava grande parte do tempo em bibliotecas e se voluntariava para cortar a grama de vizinhos idosos, Thomas, 52 anos, não era visto como alguém nervoso ou ligado à política.

Único suspeito do assassinato da parlamentar Jo Cox, ele tem dois irmãos mais novos ; Scott Mair, 49, e Duane St. Louis, 41, fruto do segundo casamento da mãe. Incrédulo diante das notícias, Duane disse à imprensa que Thommy, como chamava o irmão, sofria de distúrbios mentais e recebera ajuda profissional, mas nunca teve problemas com a polícia.

;Eu estava assistindo à tevê e o reconheci algemado, no chão. Parecia um sonho. Eu simplesmente não conseguia acreditar que ele tinha feito aquilo;, disse Duane. A mãe, Mary, havia encontrado Thomas na noite anterior e não percebera nenhum indicativo do que o filho faria no dia seguinte. Uma amiga dela disse ao jornal The G

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