A mulher de Omar Mateen

A mulher de Omar Mateen

Ex-mulher de Omar Mateen fala ao Correio sobre a personalidade conturbada do homem que matou 49 pessoas numa boate de Orlando

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 19/06/2016 00:00
 (foto: Facebook Reprodução)
(foto: Facebook Reprodução)


Do namoro que teve início na internet, no mesmo ano veio a união, celebrada em 22 de abril de 2009. Sitora Ali YuSufi, natural do Uzbequistão, e o afegão naturalizado norte-americano Omar Mateen ficaram casados por cerca de quatro meses. O conto de fadas e as promessas de felicidade deram lugar a uma relação conturbada. Em entrevista ao Correio, Sitora contou que jamais imaginou que o ex-marido fosse capaz de invadir uma boate voltada para o público LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros), em Orlando (Flórida), e disparar um fuzil AR-15 contra os frequentadores, matando 49 pessoas e ferindo 53. ;Ele, realmente, nunca deu qualquer indicação de qualquer tipo de radicalismo.;

Uma semana depois do maior ataque terrorista nos Estados Unidos desde 11 de sembro de 2001, ela diz que Mateen se tornou possessivo e opressor após um mês de casados. Sitora revelou que o ex-marido chegou a mantê-la refém em uma ocasião. ;Meu pai me salvou (do relacionamento);, lembra. Foi quando, com o apoio da família, decidiu denunciá-lo à polícia. ;Eu estou grata pelo fato de aquela situação não ter se tornado muito pior;, afirma. Hoje casada com um brasileiro, Sitora admite que Omar Mateen tinha tendências homossexuais. ;Ele se olhava no espelho por horas e eu pensava que aquilo era meio bizarro;, comentou, observando que Omar nutria ;sentimentos muito fortes; em relação aos gays. Na entrevista, feita por e-mail, a ex-mulher não citou o nome do atirador e enviou uma mensagem emotiva aos feridos e aos familiares dos mortos na boate Pulse. ;Eu rezo por vocês todos os dias, para que sua dor não seja em vão.;



Quais foram as primeiras impressões que a senhora teve de Omar Mateen ao conhecê-lo?
Ele parecia um cara perfeitamente normal... Você sabe... Charmoso, agradável, engraçado... Eu realmente jamais poderia pensar no que ele se tornou.

Por quanto tempo estiveram casados? E quais foram os primeiros sinais de que havia algo errado?
Nós estivemos casados por cerca de 4 meses. Em um primeiro momento, eu apenas percebi quão possessivo ele era e, de alguma forma, opressor. Eu era muito jovem, tinha apenas 20 anos. Honestamente, pensei que fosse algo normal. E que o casamento era aquilo mesmo. Mas, então, ele começou a se tornar agressivo, depois de um mês. Ele ficava chateado e me batia. Também não permitia que eu conversasse com minha família. Definitivamente, poderia dizer que existia uma bipolaridade aparente.

Que tipo de maus-tratos ele cometeu? Chegou a denunciá-lo?
Olha... Ele era um cara agressivo. Ele me agarrou e, umas duas vezes, bateu em mim pelo simples fato de a roupa não ter sido lavada. Nós o denunciamos quando ele me deixou ir. Ele tentou me fazer refém, e meu pai me salvou. Isso foi quando fizemos uma denúncia à polícia. Eu estou grata pelo fato de aquela situação não ter se tornado muito pior e por meu pai não ter feito nada ruim, porque ele tentou me segurar e impediu minha família de me levar embora. Eu me sinto muito abençoada e grata por ter sobrevivido. Agora, estou aqui com meu marido, que, como você sabe, é brasileiro.


Não existe jihad aqui... Há apenas um garoto confuso, que nunca poderia ser aceito e, realmente, não se encaixava em lugar algum;



Alguma vez ele lhe transmitiu uma indicação de radicalização? A senhora se recorda de ele falar sobre os atentados de 11 de
setembro, sobre a Al-Qaeda ou o jihadismo?
Não, não mesmo. Ele ficou chocado, assim como todo o mundo, com o que ocorreu em 11 de setembro de 2001. Ele, realmente, nunca deu qualquer indicação de qualquer tipo de radicalismo. Ele gostava de beber muito, o que não era bem aceito por sua família. Definitivamente, ele não teve qualquer conexão com essas organizações enquanto eu estava lá.

A senhora suspeita que ele fosse homossexual?
Bem, agora que as pessoas estão falando sobre isso, sim. Parecia meio óbvio. Aparentemente, ele tinha algum aplicativo de namoro gay no celular e visitava, com frequência, uma boate gay. Mas isso é algo que ouvi da mídia. Eu realmente procurei ignorar isso e nunca pensei tanto nisso, até agora. Você sabe... Ele era excessivamente narcisista. Ele se olhava no espelho por horas e eu pensava que aquilo era meio bizarro. Ele agia como um cara normal de sua idade faria nesse sentido. Era um pouco engraçado quantos selfies ele fazia de si mesmo. Mas, honestamente, agora faz isso.

Com base no tempo que vocês viveram como casal, a senhora já o ouviu criticar ou depreciar os homossexuais?
Sim. Definitivamente, ele tinha sentimentos muito fortes sobre homossexuais. Mas esse é o tipo de coisa que era esperado de sua cultura. Assim como o pai dele. Você sabe, é uma coisa maluca... pensar que é mais honroso morrer como ele morreu, matando ;infiéis;, do que se assumir gay. Isso é definitivamente algo que eu espero que mude. Todas as religiões estão mudando. O papa dos católicos saiu e pediu desculpas... Por que não podemos apenas fazer o mesmo?

Que mensagem a senhora deixaria para as vítimas do massacre da boate Pulse e para os familiares?
A única razão pela qual eu decidi falar com a mídia foi por causa de vocês. Eu sinto tanto sua dor. É uma tragédia que, mesmo hoje, nesse tempo de mudanças e de tecnologia, e de coisas incríveis ocorrendo no mundo, que nós ainda sejamos vítimas desse tipo de loucura. É difícil encontrar palavras que possam acalmar a dor. Impossível, mas espero que todos nós possamos perceber que as pessoas estão realmente confusas. O que precisamos é criar um diálogo entre todas as nações do mundo. Eu rezo por vocês todos os dias, para que sua dor não seja em vão. Para que, por um milagre ou por o que quer que seja, a humanidade possa aprender a se abraçar, a abraçar as diferenças de nossas culturas e a aprender a fazer a paz entre si. Nossos corações estão ainda muito pesados. Sou uma empata. Por isso, sinto isso muito intensamente. Nossa família tem orado por sua cura. Não existe jihad aqui... Há apenas um garoto confuso, que nunca poderia ser aceito e, realmente, não se encaixava em lugar algum. A paz vem de dentro. Nós podemos fazer a paz conosco mesmo. Aprender a nos aceitar. Nos amar. Dessa forma, talvez possamos curar esses traumas, perdoar o passado e ter esperança para o futuro. Não parece que há muito que possamos fazer. Mas, se apenas fizermos nossa parte, mudando nós mesmos, talvez possamos ajudar o mundo a mudar. Há um longo caminho, mas, por que não tentar?

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