Emagrecimento desnecessário

Emagrecimento desnecessário

Mesmo com IMC dentro da normalidade, homens e mulheres adotam hábitos não indicados para perder peso, como ingerir laxantes e induzir vômito. Segundo a pesquisa brasileira, os exageros são mais cometidos pelo público feminino

» ISABELA DE OLIVEIRA
postado em 19/06/2016 00:00




No manual feminino, a definição de aceitação social é atrelada a uma lista de condições. No topo do inventário, a adequação ao padrão estético, sobretudo em relação ao peso, é uma das cláusulas que mais castigam as leitoras, inclusive as que já estão ;dentro dos moldes;. Segundo uma pesquisa de pós-graduação conduzida na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), aquelas com índice de massa corporal (IMC) normal se submetem a comportamentos para emagrecer com frequência semelhante à de homens obesos.

Após analisar dados de 27.501 pessoas (veja arte), a enfermeira Sabrina Chapuis de Andrade, principal autora da pesquisa, descobriu que comportamentos voltados à perda de peso ; como jejum prolongado, exercício físico exaustivo e ingestão de diuréticos ; aumentam significativamente com o IMC, mas principalmente com a percepção que a pessoa tem do próprio peso.

;Um resultado impressionante foi a elevada porcentagem (11,3%) de mulheres com IMC normal que praticam de forma frequente comportamentos para emagrecer;, considera Sabrina Andrade. Para se ter ideia, entre elas, a ingestão de laxantes ; hábito comum da bulimia ; é equivalente ao de homens com obesidade grau 3. ;Induzir vômito é mais prevalente em mulheres com IMC normal do que em homens com obesidade mórbida;, explica a autora.

A nutricionista Mariana Melendez Araújo, pós-graduada em pesquisa clínica pela Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard (EUA), explica que o comportamento ocorre, especialmente, entre indivíduos inseridos em ambientes obesogênicos, em que há pessoas que adotam esses comportamentos. ;A acessibilidade a alimentos não saudáveis é mais fácil e a correria do dia a dia propicia esse tipo de conduta, independentemente do peso que se tem.;, explica Melendez. ;Aliás, hoje, o peso não pode ser mais parâmetro para se medir a saúde. Existem muitos magros na aparência com riscos iguais e até maiores que os de um obeso;.

Responsabilização

O assunto é delicado e muitas pessoas se recusam a conversar sobre ele abertamente. Nesse sentido, o anonimato da internet, meio utilizado pelos participantes da pesquisa, foi crucial para a investigação dos hábitos normalmente negados. Especialista em psicologia da saúde e hospitalar, Michele Pereira Martins diz que diversos estudos, além da própria prática clínica, mostram que comportamentos relacionados à perda de peso geram grande responsabilização no indivíduo.

;Isso porque fazem referência ao caráter das pessoas: alguém que não consegue controlar o próprio peso não tem força de vontade, é preguiçoso e não se envolve nas atividades. Há, sim, uma ligação com a moral do indivíduo. Percebemos que essa responsabilização e a referência à falta de caráter fazem com que essas pessoas realmente apresentem um sofrimento muito grande;, diz a psicóloga vinculada à Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso).

Por exemplo, bulímicos ; que ingerem grandes quantidades calóricas compulsivamente e, depois, induzem vômitos, entram em jejum prolongado e usam laxantes para evitar o ganho de peso ; escondem a situação por constrangimento e culpa. ;Como os comportamentos compensatórios podem evitar grandes variações de peso, a pessoa pode passar anos sofrendo de forma solitária, sem que os outros à volta identifiquem que ela está mal;, diz a psiquiatra Helena Moura, membro da Comissão de Especialidades Associadas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (Coesas).

Exercícios intensos

A maior suscetibilidade feminina à pressão pelo corpo perfeito não exclui o fato de que homens também são vítimas da cobrança. O IMC elevado e a autopercepção são associados ao risco aumentado para comportamentos voltados à perda de peso de forma frequente, especialmente entre eles. Sabrina verificou, por exemplo, que 10% dos homens do estudo se envolvem em pelo menos um comportamento frequente. Atividades físicas exaustivas e intensas parecem ser as preferidas: quase 15% dos participantes adotam a medida regularmente, e pelo menos 50% dizem fazê-la às vezes.

Em obesas, os índices ficam em torno de 40% e 10% para prática eventual e frequente, respectivamente. Influências socioculturais podem explicar esses resultados. ;O homem é considerado atraente quando tem um corpo definido e forte, assim como artistas e atletas famosos. Ou seja, ele faz mais exercícios físicos porque, além de perder peso, acredita que vai ficar musculoso;, supõe a pesquisadora.

Os participantes do sexo masculino também são mais vulneráveis à ingestão de medicamentos emagrecedores: obesos mórbidos apresentam risco 108 vezes maior de lançar mão dessa tática, comparado aos com IMC normal. Mulheres com perfil semelhante têm 30 vezes mais risco de usar medicação. A autopercepção do próprio peso, contudo, parece exercer influência nos dois sexos, mas, sobretudo, no masculino. Em relação à percepção das próprias medidas, quanto maior o valor atribuído ao ponteiro da balança, mais os homens se envolvem em comportamentos frequentes para emagrecer.

Por exemplo, aqueles que consideram a magreza essencial para a autoaceitação têm 30 vezes mais risco de induzir vômitos
para perder peso, enquanto, em mulheres, as chances são 25 vezes maiores. ;Os resultados indicam que mais importante do que trabalhar os transtornos alimentares com grupos específicos, sejam indivíduos muito magros ou obesos, é abordar o assunto com o maior número possível de pessoas e trabalhar com a autoestima delas;, diz Sabrina.

Personalidade

Agora, Sabrina analisa comportamentos para emagrecer e possíveis associações com a personalidade e os traços emocionais. Ela conta que resultados preliminares apontam a influência de tipos afetivos instáveis e externalizantes, assim como de traços marcados de sensibilidade, desejo e raiva. ;Acreditamos que conhecer melhor o perfil das pessoas com sintomas e transtornos alimentares contribuirá para um melhor entendimento desses distúrbios, que são complexos e exigem mais pesquisas para que o tratamento oferecido seja mais individualizado;, diz.

A psiquiatra Helena Moura acrescenta que estudos indicam correlação entre obesidade e risco aumentado para depressão, especialmente em mulheres. ;Quanto mais obesa é a pessoa, pior o risco, que chega a ser cinco vezes maior entre obesos de grau 3 em relação aos de grau 1. Há ainda transtornos de ansiedade, com risco 1,27 maior para transtorno de pânico;, diz.

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