Consciência contra as mortes no asfalto

Consciência contra as mortes no asfalto

Histórias como a do empresário Algmar, morto após o carro em que estava ser atingido por outro com o motorista embriagado, ainda faz parte da rotina nas ruas do DF. Especialistas defendem a formação do cidadão como forma de evitar acidentes do tipo

» ADRIANA BERNARDES
postado em 19/06/2016 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Há exatos oito anos, a proibição de dirigir alcoolizado monopolizou as conversas de bar, os jantares em família e até as celebrações religiosas. Entrava em vigor a Lei Federal n; 11.705/08, com redução dos níveis de tolerância para aplicação de multa e para classificar como criminosa a conduta do infrator. De lá para cá, as autoridades de trânsito contabilizam a redução de 686 mortes, apesar do crescimento da frota e do número de condutores no período.

O saldo positivo, porém, não pode ser comemorado por uma parcela da população. Famílias e amigos continuam enterrando vítimas de pessoas que, mesmo alcoolizadas, decidem pegar o volante. Muitos deles, jovens recém-habilitados. O caso mais recente ocorreu há uma semana. O empresário Algmar Romualdo dos Santos, 43 anos, perdeu a vida em um acidente de trânsito, na madrugada de 13 de junho, na Avenida Elmo Serejo, em Taguatinga. Ele voltava do trabalho com a mulher, Mariza Ponssiano, 53, quando teve o veículo atingindo por outro, que invadiu a contramão da via.

No volante estava Jonathan Blasse de Brito Silveira, 20. Algmar morreu na hora. Mariza ficou internada por quatro dias. Em 10, terá que voltar ao hospital a fim de fazer outra cirurgia. O resultado do teste do bafômetro acusou que Jonathan tinha 0,63 miligramas de álcool por litro de ar expelido dos pulmões. Ele recebeu voz de prisão ainda no hospital. Na delegacia, foi indiciado por homicídio e tentativa de homicídio com dolo eventual ; quando se assume o risco de matar. Levado à audiência de custódia, foi posto em liberdade menos de 24 horas após o fato, mediante o pagamento de R$ 8 mil de fiança. A reportagem fez contato com a família de Jonathan, mas um homem que se identificou como pai dele não quis dar entrevista.

Com a clavícula e a mão quebradas, dores no corpo e uma tristeza imensa, Mariza recebeu o Correio em casa, na sexta-feira, quando recebeu alta. ;A dor física é pequena diante da dor da perda dele. Era um homem maravilhoso, um pai e um avô amoroso. Esse jovem acabou com a vida da minha família. Não sei onde ele está. Mas sei onde estou e onde o meu marido está. A única pessoa que está presa é o meu marido, em uma cova;, revolta-se (leia Depoimento). Família e amigos de Algmar preparam uma passeata para hoje, às 9h, em frente à Pizzaria Du;Cheff, na Quadra 402 de Samambaia Norte.

Consequências
O caso de Algmar e Jonathan se junta a dezenas de outros e engrossa uma estatística preocupante. A de jovens alcoolizados que deixam um rastro de mortos e feridos no trânsito do Distrito Federal. Em reportagem publicada na última segunda-feira, o Correio mostrou que um em cada cinco jovens mortos no asfalto está alcoolizado. Os números reais são maiores, pois falta incluir na conta quem morre 30 ou mais dias após o acidente. E as vítimas como Algmar. ;Boa parte dos jovens é rebelde. Para eles, a lei não tem a menor importância. Só depois de sofrer as consequências de infringi-la;, avalia Dirceu Rodrigues Alves Júnior, chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet).

Na avaliação de Rodrigues, uma das causas do desrespeito é a falha na fiscalização. ;Não há como controlar 70 milhões de motoristas individualmente. Ainda não se fez nada para que isso (alcoolemia) fosse detectado de maneira coletiva. Nem para que o bafômetro fosse usado como equipamento de proteção individual, anexado ao veículo para que o condutor não usasse o veículo sob o uso de álcool;, diz.

No Distrito Federal, o desrespeito é maior entre os homens. Para cada 18 pegos alcoolizados ao volante, uma mulher acabou autuada pelo mesmo motivo. E as autuações só crescem. Na última década, a fiscalização emitiu 69.357 multas por desobediência à lei seca.


Depoimento

O carro como uma arma

;Fechamos a pizzaria e fomos buscar minha neta de 13 anos. Enxerguei perfeitamente o carro vindo muito rápido, para cima da gente, passando por cima de tudo. Acordei no chão, com os bombeiros ao lado, e não ouvia a voz do meu marido. Eles disseram que o estado dele era mais grave e já tinha ido para outro hospital. Soube da morte dele somente no fim do dia, após sair da cirurgia. Quando perguntei pelo Algmar, minha filha se afastou. Comecei a chorar. Não pude participar do velório, nem me despedir do meu marido. A dor física é muito pequena diante da dor da perda. Esse rapaz estraçalhou a nossa família. Interrompeu sonhos e planos. Queríamos ver nossos filhos formados. Estávamos comprando um apartamento e planejávamos a viagem dos sonhos: nós, nossos filhos e netos iríamos para o Nordeste de férias. Onde esse jovem está? Eu não sei. Sei onde estou e onde o meu marido está. Os governantes precisam entender que vidas estão sendo ceifadas porque o crime compensa. Você mata hoje no trânsito e amanhã está solto. Essa lei seca nunca foi cumprida. Gostaria de vê-lo punido. O que sei é que meu marido não morreu num acidente de trânsito. Ele foi morto por uma pessoa que fez uso do carro como uma arma.;

Mariza Ponssiano, 53 anos, viúva de Algmar Romualdo dos Santos, morto em acidente de trânsito na última segunda-feira


Lei seca

Ano Embriaguez ao volante Crime de dirigir alcoolizado
2015 14.144 2.049
2014 11.865 1.435
2013 6.276 1.863
2012 6.197 511
2011 9.767 785
2010 10.002 *
2009 6.808 *
2008 2.668 *
2007 1.008 *
2006

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