Intolerância em protesto na UnB

Intolerância em protesto na UnB

Grupo é acusado de gritos homofóbicos e racistas contra alunos da instituição. Protesto ocorreu na sexta-feira, com objetivo de acabar com a %u201Cdoutrinação esquerdista%u201D em universidades. Reitoria e governo repudiam ato e dizem que investigarão os envolvidos

» THIAGO SOARES » LEONARDO MEIRELES » ISABELLA DE ANDRADE Especial para o Correio
postado em 19/06/2016 00:00
 (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)

Um ato político na Universidade de Brasília, na noite de sexta-feira, tomou contornos racistas e homofóbicos. Um grupo de cerca de 30 pessoas invadiu o Instituto Central de Ciências (ICC), conhecido como Minhocão, com gritos contra greve, por volta das 21h. Eles foram abordados pelos alunos da instituição, que pediam silêncio durante as aulas. As duas partes, então, começaram uma barulhenta discussão. Nas redes sociais, um vídeo mostra pessoas vestidas de preto e com camisas da Seleção Brasileira bradando contra estudantes. ;Eu sou empresária, pago imposto caríssimo pra manter esse parasita. Gay, safado, parasita;, grita uma mulher a um aluno. O vídeo também mostra o momento em que uma bomba caseira é lançada na entrada do prédio. A instituição apura o ato, que tem uma conotação maior e reflete o estado de espírito da sociedade: a polarização política.

Entre as manifestantes, aparece Kelly Bolsonaro, ativista de direita, que invadiu o campo do estádio Mané Garrincha durante o jogo entre Flamengo e Fluminense, em fevereiro deste ano. Na ocasião, ela levantou um cartaz exigindo a saída da presidente Dilma Rousseff. Enquanto isso, o aluno de serviços sociais Kaic Ribeiro, que saía de uma reunião com estudantes de serviço social, ouviu o barulho da primeira bomba. Ele afirma ter ficado extremamente assustado quando se encontrou com o grupo concentrado no ICC. ;Fiquei muito nervoso e com medo, foi uma cena assustadora. Foram ali para dizer que todos eram vagabundos comunistas. A maioria dos alunos ficou perplexa, sem saber como reagir e eles disseram que isso tudo era só o começo e voltariam com mais. Isso foi uma manifestação fascista;, afirma.

A estudante de artes cênicas Larissa Souza, 22 anos, declara que o discurso de ódio não condiz com o projeto de criação da UnB e afirma: ;Quando o fascismo atinge instituições educacionais, devemos rever urgentemente as bases ideológicas desses espaços. Precisamos ampliar nosso discurso àqueles que insistem em deturpar o projeto de universidade democrática de Darcy Ribeiro;. Muitos presentes lembraram a invasão da Polícia Militar em 1968, durante a ditadura, e a ameaça terrorista sofrida pela instituição em 2012 (leia Memória).

Além dos ataques racistas e homofóbicos, alguns alunos também acabaram vítimas de perseguição supostamente por integrantes do grupo. Dois deles foram seguidos por um motoqueiro, após saírem com o carro do estacionamento do Minhocão. ;Tudo começou quando estávamos indo pegar o carro. Um grupo de pessoas começou a xingar a gente, chamando de vagabundos e maconheiros. Eles chegaram a provocar para alguma briga física. Vi um deles com uma haste de bandeira na mão;, lembra o estudante, que não quis se identificar. Após entrar no veículo, os alunos ainda foram seguidos por um homem que lançou objetos contra eles. ;Foi algo assustador. Nunca pensei que isso fosse ocorrer dentro da faculdade;. A ocorrência foi registrada na 2; Delegacia de Polícia (Asa Norte), que investiga os fatos.

Outra aluna diz ter sofrido o mesmo tipo de perseguição. Ela foi liberada da aula às 20h50, e saiu assustada com o barulho dos manifestantes. Ele afirma que, ao chegar ao estacionamento, também foi seguida por um motociclista. ;Eles estavam agredindo verbalmente os alunos que saíam das aulas, me chamaram de puta, maconheira, jogaram coisas no meu carro. Disse ao homem da moto que, se ele continuasse a me seguir, eu faria um boletim de ocorrência. Eu anotei a placa. Depois disso, jogaram outro objeto no meu carro, eu arranquei e fui embora;, declara a estudante.

;Sem homofobia;
Depois de várias tentativas, a reportagem conseguiu entrar em contato com um integrante do protesto da noite de sexta. Ele pediu para ser identificado apenas como Maurício ; por medo de represálias ; e disse ser amigo e estar ao lado de Kelly Bolsonaro. Maurício repudia a ideia de a manifestação ter qualquer caráter homofóbico ou racista. ;Nós nos organizamos pelo WhatsApp para um ato pacífico, com cerca de 40 pessoas, inclusive com estudantes;, afirma. Ele acredita que no máximo 30 pessoas estiveram no Minhocão Sul, todas com o intuito de pedir liberdade de expressão e protestar contra a ;doutrinação esquerdista; dentro das universidades. ;Dos 30 que estiveram ali, três tiveram um comportamento inadequado. Nós somos contra. Não tem ninguém homofóbico do nosso lado;, resumiu, destacando que também não veio a bomba que explodiu no meio da confusão.

Maurício reconhece que alguns manifestantes estavam mais exaltados. ;Eles estavam com medo porque já aconteceu antes de a gente protestar e ser agredido;, afirma. ;Uma senhora foi muito provocada. Um cara levantou a saia e mostrou as nádegas para ela. Não precisava xingar, mas, às vezes, não conseguimos nos controlar;, explica Maurício, justificando as palavras de uma das integrantes do grupo. Ele disse também ter repreendido outra pessoa que estava com uma espécie de porrete na mão.


Outro protesto

Em uma página do Facebook, intitulada ;Ato contra o discurso de ódio, o fascismo e a violência na UnB;, representantes de diversos Centros Acadêmicos convocam para um ato contra os ataques sofridos pelos estudantes da instituição. A convocação é para amanhã, a partir das 12h, no espaço conhecido como Ceubinho.



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