Gerações perdidas

Gerações perdidas

por Paulo Pestana papestana@uol.com.br
postado em 19/06/2016 00:00




Um menino em torno dos sete anos de idade conta notas de R$ 50 e, quando perguntado para que era aquele dinheiro, responde: ;para pagar prostitutas; ; o substantivo é outro, mas sou daqueles antiquados que não gostam de ver palavrão impresso.

Outro menino, ainda mais novo, faz top-top, aquele gesto celebrizado pelos Fradinhos, do Henfil, e eternizado pelo petista Marco Aurélio Garcia. E complementa: ;Se ferrou, ó; (de novo, o verbo é outro, mais hirsuto).

Um terceiro garoto aparece fazendo pose de gente e anuncia, depois de um vídeo mostrando garotas desinibidas: ;tudo prostituta; (leia-se o sinônimo cabeludo).

Periodicamente as redes sociais mostram pequenos vídeos como esses, expondo crianças ao mundo dos adultos em atitudes impróprias, certamente incentivados por pais que acham tudo uma gracinha ou por aquele tio que gosta de ensinar palavrão e fazer saliência. E tem gente que se escandaliza com um gol de mão.

De modo geral as pessoas acham engraçado, tanto que replicam em mensagens por telefone ou em páginas eletrônicas. Não sei se ando muito mal-humorado, mas, além de não achar a menor graça isso só piora a minha já manquejada relação com o ser humano.

Já chega a falta de compostura do mundo em relação a infância, que vem sendo espremida por educadores que querem que uma criança de cinco anos aprenda a ler e pelo entretenimento, que a brutaliza e ; com perdão do verbo inventado ; sexualiza cada vez mais cedo. O espaço lúdico se perdeu; cada vez mais há menos tempo para brincar.

O governo começou um grande programa de creches; como sempre, fizeram as coisas ao contrário ao tentar combater consequências em vez das causas. Prédios bonitos, coloridos, oferecem apenas meio período para as crianças, enriquecendo estatísticas, mas dando de ombros para o que importa. No segundo período a criança volta para a rua, exposta.

Creche só tem serventia se ajudar a criança a desenvolver seu lado lúdico, a completar a sinapse e ensinar convívio social, com noções de respeito e civilidade. Esta semana, um pensador-educador cheio de doutorados deu entrevista lamentando o modelo das creches do governo e ; absurdo ; cobrando currículo educacional nas creches.

O doutor faz confusão entre conhecimento e educação. Uma criança de 0 a 5 anos não precisa mexer com letras e números. Precisa aprender a conviver, a respeitar; ter espaço para brincar, imaginar e se conhecer. É o que vai servir de base para ela enfrentar a vida de adulto.

No Brasil real as dificuldades são outras. Entidades enfrentam todas as dificuldades para conseguir qualquer apoio, até mesmo uma Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social (Cebas), que dispensa o pagamento de alguns impostos e ajuda na captação de recursos.

Um grupo de abnegados do Paraná, por exemplo, tenta manter em pé uma creche que beneficia mais de 50 crianças, com período integral, alimentação e atividades. Não consegue vencer a burocracia federal; o processo vai de um ministério a outro há quase quatro anos. Pode ser que falte dinheiro ao governo, mas o que mais falta é vergonha.

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