DEPOIMENTO / ODACIR KLEIN

DEPOIMENTO / ODACIR KLEIN

postado em 19/06/2016 00:00
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)


;Parei de beber muitas vezes, mas recaía, porque estava apenas abstêmio e não sóbrio. Sobriedade é uma sensação de bem-estar permanente, geradora de tranquilidade e paz. Abstinência é a não ingestão. Muitas vezes, fiquei sem beber por muito tempo, até mais de um ano, mas meu estado era apenas de abstinência, pois ficava contando quanto tempo fazia que estava sem ingerir bebida alcoólica. Era um sintoma de que estava desejando beber. Pensava que a não ingestão de bebida alcoólica por longo período havia resultado em desintoxicação do organismo e que poderia beber moderadamente. Voltava a beber e as recaídas eram horríveis. À época, não havia atingido a sobriedade; apenas praticado atos de abstinência. O abstêmio pode sentir falta de bebida alcoólica. O sóbrio, não. O abstêmio fica privado do prazer que a bebida lhe confere e não alcança a felicidade de quem corta com segurança o uso, passando a ser sóbrio. Sobriedade significa a não intoxicação, com qualidade de vida mais saudável e paz interior ; pela ausência da ressaca moral e pela certeza de não estar concorrendo para a infelicidade dos familiares. Quando ficava apenas abstêmio, tinha sensação nostálgica. Agora, sóbrio, a única lembrança que tenho é do que causei de infelicidade, não só pessoal, mas para as pessoas que por mim têm afeto.;




As quatro atitudes

O histórico da relação com o álcool tornou Odacir Klein um estudioso do tema. Sempre que pode, ele compartilha o que aprendeu. Como ele próprio diz, ;não se trata de nenhuma liga antialcoólica nem daqueles chatos que ficam policiando quem bebe;. A partir da experiência, ele delineou quatro atitudes possíveis em relação ao consumo de álcool.

1. Há os que rejeitam a bebida alcoólica. Seus organismos são antialcoólicos. Beber, mesmo em pequenas quantidades, causa-lhes desconforto físico. Diante disto, não bebem e não correm o risco de se tornarem dependentes de álcool.

2. Há aqueles que podem beber moderadamente. Não são compulsivos no uso da bebida. Têm controle. Como exemplo, cita quem tem o hábito de tomar um pouco de vinho no almoço. O consumo termina com a refeição, não vai além. No caso de Odacir, se bebesse um copinho, o organismo pediria mais, por compulsão.

3. Há ainda as pessoas que sentem profundo prazer com a ingestão de bebida alcoólica. Normalmente, têm insuficiência de endorfina (neurotransmissor com poder analgésico), e o agente externo (a bebida) traz a sensação de bem-estar. O organismo pede cada vez mais. Esses indivíduos começam tomando pequenas quantidades, mas seguidamente chegam à embriaguez. São beberrões em jantares, festas e outros eventos. Como, no entanto, não bebem todos os dias, seus organismos não se tornam dependentes do álcool. Já ouviu as pessoas dizerem que alguém não bebe todos os dias, mas toma um porre a cada fim de semana? É um sinal amarelo aceso. Se passarem a beber com habitualidade, instalarão em seus organismos alcaloides que neles permanecerão. A partir daí, serão dependentes.

4. No caso dos dependentes, os alcaloides instalados no organismo são hóspedes que não abandonam a hospedaria de nenhuma forma. Se forem alimentados, tomam conta. Se não forem, ainda assim não somem ; hibernam. Odacir Klein conta que ficou sem beber por longos períodos. Quando achava que poderia tomar um ;pouquinho;, o organismo pedia mais. ;A recaída é terrível, pois parece que o hóspede que estava instalado no organismo sem seu alimento quer tirar o atrasado. Na recaída, há uma absoluta falta de controle. A pessoa torna-se alcoolista, ou seja, portador da doença do alcoolismo. A doença foi instalada no organismo pela ingestão da bebida alcoólica e é incurável. O alcoolista é doente. O alcoólatra é um viciado;, conta. Quem faz o diagnóstico para afirmar que o cidadão está doente e que não deve ingerir álcool? Para Odacir Klein, é o próprio usuário. Os outros sabem de sua dependência e sofrem, por solidariedade. O usuário, no entanto, tem que entender que o primeiro gole lhe rouba o controle e que depende exclusivamente dele dizer ;parei;. Precisará de socorro médico para a desintoxicação. ;O gesto de busca da abstinência para chegar à sobriedade é da própria pessoa. Quem conseguir isso trocará o prazer momentâneo pela felicidade.



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