De Caruaru, com orgulho

De Caruaru, com orgulho

O designer gráfico Fábio Melo vem se destacando pelas cerâmicas de formas orgânicas e brasilidade à flor da pele

Juliana Contaifer
postado em 19/06/2016 00:00
 (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)






Quando o designer Fábio Melo era criança, morria de vergonha de ser de Caruaru, Pernambuco. Quando ia com a avó à feira, andava vários passos atrás, escondido dos olhares de quem passasse, com medo de ser enquadrado naquela cena, que incluía várias sacolas e cesto equilibrado na cabeça. Tinha também medo do galo que ia vivo, cheio de belas penas, debaixo do braço da avó. Achava a cidade muito pequena para si. Aos 12 anos, Fábio foi embora para Recife, sozinho. A qualquer pergunta, respondia que era dali mesmo.

Foi na capital do estado que Fábio estudou, se formou e abriu um escritório de design gráfico. Fez uma vida toda longe de Caruaru. Trabalhou muitos anos com publicidade, mas sempre rabiscava alguns produtos. Fazia alguns para a própria casa. Há nove anos, jogou tudo para o alto, vendeu tudo, e se mudou para Goiânia, atrás de um grande amor. Ficou um tempo ocioso, mas a cabeça logo começou a trabalhar e desenhar peças.

Ao acompanhar uma amiga como assessor de compras a uma fábrica de cerâmica e barro, acabou saindo do local com uma encomenda para criar uma coleção de peças. Os materiais remetem com frequência à fauna e à flora brasileiras. Fábio desenhou logo uma série fechada. Quando chegou à fábrica, descobriu que as linhas retas e os ângulos fortes de seus desenhos não funcionavam para o material. A cerâmica trincava.

No desespero de criar outra coleção, do zero, em cima da hora, Fábio viu alguns galos no quintal da fábrica. Lembrou-se dos galos da infância. ;Foi quase um surto. Fui buscar referência em um lugar que eu neguei a vida toda. Resolvi começar daí. Eu me inspirei nos símbolos da seca do agreste ; acho que tem muita relação com o fato de a cerâmica vir da terra;, conta. Assim nasceu Turbulência, a primeira coleção de peças de design de Fábio. Os vasos e as luminárias estão à venda na loja Arquivo Contemporâneo, no Lago Sul.

;Acho que é importante essa questão de volta às origens, à nossa essência. Tenho observado esse retorno em várias áreas. Na culinária, por exemplo, volta-se à questão do pequeno produtor. Acho que é nessa volta que nós aceitamos quem somos de verdade;, explica o designer. Nessa onda de abraçar a brasilidade, Fábio conta que o objetivo de suas peças é ser um complemento dos móveis de design brasileiro. Não quer seus vasos e luminárias perdidos em lojas de objetos mas, sim, em locais onde possam compor sem ferir o design e que, ao mesmo tempo, apareçam enquanto desenho.

O retorno a Caruaru foi tão emocionalmente importante para o designer que a próxima coleção já está engatilhada na cabeça. Desta vez, a inspiração vem do casal Lampião e Maria Bonita. Parece que os dias de linhas retas e desenhos geométricos ficaram para trás.



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