Referendo é um retrato do Reino Unido

Referendo é um retrato do Reino Unido

Referendo sobre a permanência dos britânicos na União Europeia aponta insatisfação com a integração continental e demanda reflexão sobre aspectos centrais do bloco. Itália, Holanda e Dinamarca exigem consulta popular

GABRIELA WALKER
postado em 24/06/2016 00:00
 (foto: Niklas Halle%u2019n/AFP)
(foto: Niklas Halle%u2019n/AFP)









Os britânicos decidiram ontem o destino do Reino Unido na União Europeia (UE), depois de quatro meses de uma campanha agressiva, que dividiu a população. A disputa acirrada revelou não apenas o fracasso político em responder à crescente demanda migratória, como deixou clara a insatisfação britânica com o processo de integração do bloco europeu. Mesmo antes da abertura dos centros de votação, o referendo mostrava um resultado inegável sobre a necessidade de repensar aspectos centrais da UE. Até o fechamento desta edição, à zero hora de hoje, os partidários do Brexit ; defensores da saída do bloco ; contavam com 9.191.197 votos contra 8.712.829 para os adeptos da permanência na União Europeia.

Na véspera da votação, o presidente francês, François Hollande, tinha prometido que, ;aconteça o que acontecer;, iniciativas capazes de permitir uma ;evolução da construção europeia; precisam ser debatidas. Nos últimos meses, conversas entre autoridades do bloco dificilmente ignoravam o assunto. O polonês Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, disse a jornalistas que ;seria insensato ignorar um sinal de alarme como o do referendo britânico;, mais um indício de que a urgência por mudanças não é sentida somente pelo Reino Unido.

Na visão de Márcio Coimbra, coordenador do MBA em relações institucionais do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), o processo britânico ;força a UE a se olhar no espelho, a repensar políticas comuns, e o tamanho da autoridade de Bruxelas, os benefícios concedidos aos cidadãos e, acima de tudo, a livre circulação de pessoas;. A iniciativa britânica inspira eurocéticos de diversos países, que acompanharam passo a passo o processo no Reino Unido. A líder da extrema-direita na França, Marine Le Pen, defendeu que consultas populares sobre a permanência no bloco sejam organizadas em todos os Estados-membros da UE.

Movimentos anti-europeus na Itália, na Holanda e na Dinamarca exigem referendos. Na Suécia, o partido de extrema-direita Democratas Suecos alertou que fará o possível para limitar a influência de Bruxelas sobre o país. ;A UE será forçada a fazer concessões. Aos britânicos, caso fiquem, e aos demais, para evitar que as forças que os impulsionam a sair se multipliquem;, destaca Ingo Pl;ger, presidente internacional do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal).

Votação
Muitos britânicos enfrentaram chuvas e alagamentos para registrar o voto ontem. Em Londres, os temporais dificultaram o funcionamento dos trens e metrôs, e longas filas se formaram nas estações, com cidadãos apreensivos para chegar aos colégios eleitorais. Cerca de 70% dos mais de 46 milhões de eleitores habilitados a participar da consulta votaram ontem. O primeiro resultado veio de Gibraltar, onde 95,9% dos eleitores se mostraram favoráveis à permanência no bloco. Os apoiadores do Brexit tiveram a primeira vitória na cidade de Sunderland. Um triunfo eurocético na cidade era esperado, mas o suporte de 61% dos eleitores foi maior do que o previsto.

A primeira pesquisa divulgada após o fechamento dos centros de votação, elaborada pela empresa YouGov, mostrou a liderança da permanência na UE, com 52% dos votos. As últimas sondagens feitas por telefone antes da abertura das urnas também indicavam vantagem do lado pró-UE. Casas de apostas, que davam vitória tranquila para a permanência ; com tendência de 90% ; mudaram drasticamente de posição durante a madrugada, indicando tendência de 60% a favor de Brexit.

Logo após o fechamento dos colégios eleitorais, às 22h em Londres (18h em Brasília), um dos principais militantes da campanha eurocética, o líder do partido ultraconservador Partido de Independência do Reino Unido (Ukip), Nigel Farage, mostrou pouco otimismo com o resultado. ;Foi um processo de plebiscito extraordinário, a participação parece ter sido excepcionalmente alta e parece que o ;ficar; vai permanecer na frente;;, disse ele à Sky News.

Em declaração à imprensa, Farage defendeu que, independentemente do resultado, os maiores vitoriosos do processo são os militantes contra a UE. ;O gênio eurocético saiu da garrafa e não será colocado de volta;, disse.

Por sua vez, o premiê, David Cameron, agradeceu os cidadãos em seu perfil no Twitter. ;Obrigado a todos que votaram para manter o Reino Unido mais forte, mais seguro e melhor na Europa.;


Julgamento marcado

Thomas Mair, o homem acusado de matar a parlamentar trabalhista Jo Cox, será julgado em 14 de novembro. Ele vai responder pelos crimes de homicídio, lesões corporais graves, posse de arma de fogo com intenção de cometer um delito condenável, posse de arma ofensiva. Jo Cox, 42 anos, recebeu três disparos de arma de fogo, um deles perto da cabeça, e foi esfaqueada várias vezes. O crime ocorreu em 16 de junho, diante da biblioteca de Birstall.


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