Um baque na bancada petista

Um baque na bancada petista

Denúncia contra Paulo Bernardo deve levar Dilma Rousseff a se defender pessoalmente no Senado no início do próximo mês

PAULO DE TARSO LYRA JULIA CHAIB
postado em 24/06/2016 00:00
 (foto: Miguel Schincariol/AFP)
(foto: Miguel Schincariol/AFP)

A prisão, na manhã de ontem, do ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo, marido da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), foi um baque nos ânimos da bancada petista na comissão do Impeachment e pode sepultar de vez a possibilidade de a presidente afastada Dilma Rousseff defender-se pessoalmente na Casa em 5 de julho.

As chances de Dilma se defender, agora, diminuíram drasticamente, pois Gleisi é muito ligada à presidente afastada. ;A prisão de ontem tira o debate da corrupção das estatais e joga no primeiro escalão de Dilma;, lamentou um integrante da bancada de senadores. Além disso, ela ocorre em um momento em que, nas palavras de um filiado da legenda, o PT começava a ganhar fôlego na batalha contra o governo interino. ;Agora, voltamos para as cordas;, disse o aliado. Em público, contudo, seja por meio de nota oficial ou em discursos, os petistas mantêm o tom elevado das críticas e ataques.

Integrante da tropa de choque dilmista, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) chamou de ;violência; a operação na casa da senadora petista. ;Foi um espetáculo para constranger a senadora Gleisi e prejudicar a defesa da presidente Dilma. Mas não vão conseguir;, disse ele, alegando não haver razões para a prisão preventiva de Bernardo. ;Cai num momento para tentar desviar esse foco. Estamos estranhando muito o timing dessa operação;, disse ele.

Na avaliação do advogado da presidente Dilma Rousseff e ex-advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, a operação não interfere na defesa da presidente. ;É evidente que os fatos que estão sendo objeto desta investigação não têm nada a ver com os fatos discutidos na comissão, absolutamente nada a ver;, disse. Ele afirmou ainda que a petista voltará ao colegiado. ;A senadora Gleisi é uma senadora combativa, competente, séria e acho que vai continuar exercendo o seu papel;, completou.

Em nota, a bancada de senadores petistas manifestou total solidariedade à Gleisi e sua família. ;A bancada estranha que tal prisão tenha ocorrido no momento em que a Nação toma conhecimento de fatos gravíssimos de corrupção que atingem diretamente o governo provisório. No entendimento da bancada, tal prisão e a invasão da sede do PT desviam o foco da opinião pública do governo claramente envolvido em desvios, para a oposição democrática;, acrescenta a nota.

Gleisi garantiu aos correligionários a presença na próxima reunião da Comissão, marcada para segunda-feira. ;Ajuda o fato de ela deter-se mais no debate técnico das pedaladas e do golpe em si. Diferentemente de Lindbergh, por exemplo, ela não vai à tribuna cobrar a prisão dos peemedebistas;, disse um interlocutor petista.

O líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima (PB) disse apoiar as investigações, mas classificou como abusiva a entrada na casa da senadora. ;É preciso coibir e ficar atentos a abusos, porque um juiz de primeira instância não tem jurisdição para determinar buscas na casa de uma senadora. Pode até se admitir nas propriedades privadas, mas em uma residência oficial, em um apartamento funcional do Senado, só quem poderia autorizar é o Supremo Tribunal Federal;, disse. O tucano afirmou ainda que o episódio não é algo a ser comemorado. ;Não há porque tripudiar. Há uma família por trás;, justificou.



;Foi um espetáculo para constranger a senadora Gleisi e prejudicar a defesa da presidente Dilma. Mas não vão conseguir;
Lindbergh Farias (PT-RJ), senador



Os alvos

Juiz ordenou 11 prisões preventivas, 14 conduções judiciais e 40 buscas e apreensões


Prisões preventivas

Paulo Bernardo Silva, ex-ministro

Valter Correia da Silva, ex-secretário do Ministério

Guilherme de Salles Gonçalves, advogado de Gleisi em eleições

João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT

Paulo Ferreira, ex-tesoureiro do PT

Washington Luiz Viana, ligado à empresa CSA Net

Nelson Luiz Oliveira Freitas, ex-diretor do ministério

Joaquim José Maranhão da Câmara, ligado à empresa Consucred

Emanuel Dantas do Nascimento, ligado à empresa Consucred

Dércio Guedes de Souza, ligado à empresa JD2

Daisson Portanova, advogado


Ordem de condução judicial

Carlos Eduardo Gabas, ex-ministro da Previdência

Leonardo Attuch, jornalista

Fonte: Autos na 6; Vara Criminal Federal de São Paulo


;Foi um espetáculo para constranger a senadora Gleisi e prejudicar a defesa da presidente Dilma. Mas não vão conseguir;
Lindbergh Farias (PT-RJ), senador



Personagem da notícia

De siafeiro a detento



DENISE ROTHENBURG


Paulo Bernado Silva, um paulista de 64 anos, chegou ao Congresso em 1991, ano seguinte à posse de Fernando Collor na Presidência da República. Desembarcou para a glória de representar os paranaenses e o PT no Congresso ao lado de José Dirceu, que também chegava para o seu primeiro mandato de deputado federal. Os dois à época cerraram fileiras na oposição a Collor, ao lado de José Genoino, Luiz Gushiken, veteranos na Casa, desde os tempos da Constituinte. Agora, 25 anos depois, os dois estão preso enroscados em escândalos paralelos.

Dirceu logo se destacou na linha de frente de oposição ao governo e na CPI que derrubou o então presidente, acusado de corrupção. Bernardo, entretanto, só iria se destacar mais tarde, a partir de 1993, depois da queda de Collor, quando a jovem assessora Gleisi Hoffmann levou para o gabinete a expertise das consultas ao Siafi, o Sistema de Acompanhamento Financeiro, até então privilégio das assessorias dos senadores, como Eduardo Suplicy (PT-SP), o primeiro a colocar a pesquisa dos gastos públicos como prioridade um do mandato.

Na assessoria de Bernardo, Gleisi, especialista em Orçamento, passava horas vasculhando onde o governo federal aplicava os impostos dos contribuintes. Seu trabalho rendeu a Bernardo simpatia junto a jornalistas que investigaram o escândalo dos anões do Orçamento e o desvio de dinheiro público.

Foi no período daquela CPI que Bernardo ganhou destaque como ;siafeiro;. Ali, ele e Gleisi se apaixonaram. Ele foi deputado e a teve como sua assessora até janeiro de 1999, quando, derrotado na eleição de 1998, foi para a secretaria de Fazenda de Mato Grosso do Sul, no governo de Zeca do PT, onde permaneceu por dois anos. Bernardo saiu da secretaria para voltar ao seu berço político, o Paraná, como secretário de Fazenda de Londrina. Ali, remontou a base que lhe permitiu voltar ao Congresso

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