Passo decisivo rumo à paz

Passo decisivo rumo à paz

Bogotá e a guerrilha das Farc assinam pacto histórico de cessar-fogo bilateral e anunciam detalhes para pôr fim ao conflito. ONU vai vistoriar deposição de armas. Rebeldes devem se integrar à sociedade em 23 zonas de transição espalhadas pelo país

GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 24/06/2016 00:00
 (foto: Adalberto Roque/AFP)
(foto: Adalberto Roque/AFP)



Após o governo do presidente Juan Manuel Santos e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) assinarem o histórico pacto de cessar-fogo bilateral, os negociadores de ambos os lados devem se debruçar sobre os detalhes remanescentes para a conclusão do acordo definitivo de paz. Em cerimônia que marcou a finalização da etapa de conversações sobre a agenda de cinco pontos em Havana, as partes explicaram como será o processo de desmobilização da guerrilha. O fim do conflito armado e os demais pontos de entendimento somente deverão entrar em vigor com a assinatura do tratado de paz final e com sua validação por referendo popular ; etapa inclusa nos termos do acordo de cessar-fogo.

De acordo com o documento, todo o processo de deposição das armas por parte dos guerrilheiros será vistoriado pela Organização das Nações Unidas (ONU). O grupo terá prazo de 60 dias para entregar a primeira remessa de armas e de 180 dias para abrir mão de todo o arsenal. As partes estabeleceram 23 zonas de transição onde será feita a integração progressiva dos guerrilheiros à sociedade civil. As regiões terão serviços de segurança garantidos por Bogotá e por um mecanismo de monitoramento do processo de paz. Nessas zonas, os protestos políticos ficarão proibidos.

O compromisso determina as garantias de segurança aos guerrilheiros e à população colombiana. Entre as medidas estabelecidas no documento, estão questões como a participação dos integrantes das Farc no sistema político nacional; o fortalecimento da Justiça; o monopólio das forças de segurança e do uso de armas de fogo por parte do Estado; e o esclarecimento do paramilitarismo na Colômbia.

Para Sérgio Guarín, coordenador da Fundación Ideas para la Paz (FIP), o acordo firmado em Havana reitera que o processo é irreversível. ;Ele sinaliza, com detalhes, os passos para a transição das Farc de uma organização armada para um grupo político;, observa. O analista acredita que, para garantir a conclusão do acordo de paz, será necessário acelerar as negociações e evitar conflitos ou ações armadas nos territórios ocupados pelas Farc.

Guarín destaca que o clima favorável ao acordo de paz deve ser aproveitado. Embora as pesquisas de opinião indiquem que a maioria dos colombianos deve votar em favor do acordo de paz, o analista observa que a possibilidade de reprovação no referendo pode levar os negociadores de volta à mesa de diálogo. ;Depois do que ocorreu hoje (ontem), acho improvável que o ;não; ganhe. O governo e a guerrilha expuseram todas as suas vulnerabilidades e não vão arriscar uma derrota;, pondera. Entre os pontos pendentes para a conclusão do acordo definitivo, estão questões como a possível transformação das Farc em um partido político e a composição dos tribunais que tratarão dos crimes cometidos durante o conflito e da reparação às vítimas.

Reações
O presidente Juan Manuel Santos exaltou a importância histórica do acordo, após mais de 50 anos de conflito. ;Chegou a hora de vivermos sem guerra, de vivermos em um país com paz, de vivermos em um país com esperanças;, afirmou. Em sua página no Twitter, o líder máximo das Farc, Timoleón Jiménez (;Timochenko;), demonstrou apoio ao referendo popular. ;Nós nos preparamos para referendar os acordos. Falta definir em que momento eles entrarão em vigor, para iniciarmos a construção da paz;, escreveu. A hashtag #AdeusÀGuerra foi difundida pelas contas do grupo nas redes sociais.

A assinatura do documento foi celebrada pela comunidade internacional como um grande marco para o processo de pacificação da Colômbia e alimenta esperanças de avanço nas negociações com o Exército de Libertação Nacional (ELN). Depois de o governo americano felicitar os colombianos pelo avanço rumo à paz, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, afirmou que seu país ;analisará o comportamento; das Farc para decidir se vai retirá-lo ou não da lista de organizações terroristas.


Ingrid Betancourt vê
;feito extraordinário;


Em entrevista à rádio Caracol, Ingrid Betancourt, ex-candidata à Presidência da Colômbia que ficou sob o poder das Farc entre 2002 e 2008, considerou um feito ;extraordinário; o acordo de cessar-fogo assinado ontem. ;Será a primeira vez, em 60 anos, que os camponeses sentirão o silêncio das armas, dormirão tranquilos e saberão o que é viver em paz;, ressaltou. Ingrid afirmou que o processo de justiça negociado entre a guerrilha e Bogotá oferece a segurança de que não haverá impunidade e exortou a tolerância durante o processo de integração política. ;A Colômbia será uma verdadeira democracia;, celebrou. A ex-guerrilheira Elda Neyis Mosquera, conhecida como ;Karina;, no entanto, afirmou que o país não está preparado para a paz. ;Falta que as pessoas desarmem seus corações. E é um trabalho árduo, que será preciso fazer;, ponderou.


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