Triste fim das livrarias de rua

Triste fim das livrarias de rua

Comércios recém-abertos desse tipo de segmento começam a fechar as portas na capital federal. A crise no país, o valor dos aluguéis e a concorrência da internet e das grandes empresas foram alguns dos fatores que derrubaram as vendas nos últimos três anos

» Bruno Lima Especial para o Correio
postado em 24/06/2016 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)





O charme das livrarias de rua tem se tornado cada vez mais raro em Brasília. A crise econômica, atrelada às novas possibilidades oferecidas pela internet, está fechando as portas de diversos estabelecimentos desse segmento. De acordo com o Sindicato do Comércio Varejista de Material de Escritório, Papelaria e Livraria do DF (Sindipel), a queda nas vendas dos livros impressos chegou a 30% nos últimos três anos. ;Trata-se de um produto de cultura e lazer, para gente que tem prazer em comprar e ler o livro. Só que, no atual momento do país, as pessoas optam pelo essencial. Essas coisas supérfluas, o consumidor acaba deixando de lado;, explica o presidente do Sindipel, José Aparecido da Costa.

Ele é dono de uma rede de papelarias que também vende livros. No último ano, fechou três das sete lojas que mantinha. Além da queda nas vendas, a taxa de juros e o preço do aluguel contribuíram para que o empresário reduzisse o tamanho do negócio. ;Provavelmente, se essa situação continuar, até o fim do ano vamos fechar mais uma loja. As empresas não estão aguentando. Até as lojas de shoppings estão tendo problemas;, conta.

Na 111 Sul, a Le Calmon, onde também funcionava um café, encerrou as atividades após sete meses de serviço. O mesmo destino teve a Livraria Primavera, inaugurada no Sudoeste no começo do ano. Depois de seis meses, Heber Rodrigues teve de abandonar a iniciativa. Ele vendeu um carro para investir no empreendimento com a esperança de que o negócio traria retorno e, agora, precisará arcar com as dívidas. ;Além do aluguel e da baixa porcentagem de lucro na venda de cada livro, não teve a movimentação de clientes que a gente esperava. A cultura está ficando em segundo plano. As prioridades são outras;, lamenta.

Segundo o empresário, para custear as despesas do local e o salário de funcionários, teria de vender cerca de 20 mil livros por mês. ;Com essa crise, a gente não consegue ver uma luz no fim do túnel. Eu trabalhei com isso a minha vida toda, praticamente só sei fazer isso. Se ano que vem as coisas melhorarem, eu tento novamente.;

Antes de abrir o próprio negócio, Heber trabalhou 14 anos na Livraria Dom Quixote. A maior loja da rede ocupava um espaço de 150 metros quadrados no Gilberto Salomão, no Lago Sul. No entanto, a redução nas vendas fez com que o dono da Dom Quixote, Márcio Castagnaro, demitisse 23 funcionários e se mudasse para uma loja com aluguel mais baixo. ;A gente veio para uma loja no andar de baixo; reduzimos o tamanho para tentar ver se as coisas ficam mais viáveis. Nós já fechamos cinco pontos de venda desde o ano passado. Se as coisas continuarem assim, eu não sei se a empresa conseguirá atravessar essa crise até o fim do ano;, lamenta Márcio.

Ele mantém, ainda, livrarias em Águas Claras, na Rodoviária do Plano Piloto e no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Até junho, o comércio do Lago Sul vendeu, em média, 156 livros por dia. No ano passado, a estimativa era de 354, quase o dobro. ;A gente enxugou o máximo que deu. Não tenho mais onde cortar e, se continuar desse jeito, eu vou começar a acumular dívidas e sair queimado no mercado;, queixa-se o empresário.

Best-sellers

O presidente da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, José Salles Neto, reconhece que a venda de livros diminuiu nos últimos anos, mas atribui isso ao próprio perfil dos consumidores. ;A internet influencia muito a venda de livros didáticos. O que acontece em Brasília é que o público migrou para as livrarias de shopping, onde tem segurança e é mais acessível;, argumenta. O morador da cidade também avalia que os comércios fechados recentemente perderam público por causa dos produtos oferecidos. ;Esses lugares têm produtos de melhor qualidade. Não vendem best-sellers nem livros didáticos. Sem vender esses livros, que são os mais procurados, não tem como sustentar aluguel tão alto como os cobrados aqui no Plano Piloto;, analisa.



Para saber mais

Vergonha
internacional

Pesquisa do site NOP World no ano passado apontou que o tempo que os brasileiros dedicam à leitura diminuiu nos últimos anos. Metade da população do país é formada por pessoas que não têm o costume de ler. Segundo o levantamento, em ranking com 30 países, o Brasil está em 27; lugar no tópico Tempo gasto com a leitura. A primeira colocada é a Índia, que dedica 10h42min por semana aos livros. Os brasileiros leem por apenas 5h12min. A campeã por aqui é mesmo a tevê: cada brasileiro gasta, em média, 18h40min semanais diante da telinha.



Memória

De livreiros
a famosos

Um dos redutos culturais mais antigos de Brasília abrigou durante muito tempo livrarias importantes da cidade. Durante a década de 1990, o Setor de Diversões Sul, o Conic, contava com estabelecimentos como a Presença, a Galileu e a Casa do Livro, que encerraram as atividades. A Presença, uma das mais icônicas, funcionou durante 15 anos e fechou as portas em 1995. Entre os famosos que passaram por lá estão Renato Russo, Marcelo Rubens Paiva, Zuenir Ventura, Darcy Ribeiro e José Saramago.


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação