Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

Mas se todos fazem...

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 24/06/2016 00:00
Sob o título Argumento, o poeta Francisco Alvim escreveu os versinhos que estão no alto da página. Chico explora a linguagem coloquial de uma maneira tão extrema, que, algumas vezes, a gente pergunta: ;Será que isso é poesia?; Ou comenta: ;Se isso for um poema, até eu faço;.

E, na verdade, com o espírito de crítica e autocrítica implacáveis, em momentos de exame da consciência, o próprio Chico fica em dúvida se realmente é poeta. No entanto, os referidos versos ganharam uma surpreendente e estarrecedora atualidade com as revelações e os desdobramentos políticos da Operação Lava Jato.

É o próprio Chico quem fornece a senha para entrar em sua poesia: ;Quer ver? Escute;. Boa parte de sua poesia nasce dessa escuta fina, aguda e irônica. Atualmente, Chico está aposentado, mas ele morou e trabalhou em Brasília de 1975 a 1995, na função de diplomata, sempre com os ouvidos atentos às falas triviais dos gabinetes e corredores. O método de captação é o de um repórter aparentemente distraído, mas armado de radares extremamente sensíveis para os desejos inconfessáveis, as dissimulações e o teatro da crueldade cotidiano.

E, dessa maneira, ele pegou no ar os versos de Argumento, poema publicado no livro Elefante, em 2004, muito antes de deflagrada a Operação Lava Jato. Quer dizer, os sensores poéticos de Chico estavam aguçadíssimos. De uma frase banal do cotidiano, ele captou no ar o argumento que seria usado por partidos de esquerda e de direita para justificar a roubalheira. O não dito é tão ou mais importante do que é dito em seus versos, que ficam ressoando na cabeça.

Pessoalmente, Chico é o sujeito mais elegante, cordial, afável e bem-humorado que se possa imaginar. Ostenta o título nobiliárquico de ;Príncipe da Poesia Marginal; da maneira mais leve. Mas ele é, ao mesmo tempo, muito mineiro, exercita na poesia uma consciência mineira atormentada, tensa, crítica e dramática.

Precisamente por causa da tendência a explorar o lado sombrio dos acontecimentos, ele é atraído pela luminosidade de Brasília. Certo dia, sentiu um alumbramento ao cruzar o Eixo Monumental e escreveu um poema para celebrar o instante, convocando os pintores da luz: ;Um céu, que não existe/ou talvez exista na França de Poussin/refratado nos interiores de Chardin/talvez em Turner/talvez em Guignard/certamente em Dante/ao chegar à praia do Purgatório/A felicidade que a luz traz/solta, nua neste céu;

Sem nenhuma pretensão, à revelia de si mesmo, Chico escreveu o verso profético da era Lava Jato., como se fosse um Dalton Trevisan do Lago Norte ou um Freud de Araxá a remexer os recessos mais pantanosos do inconsciente brasileiro. É impressionante como uma fala banal pode ser, algumas vezes, tão reveladora: ;Mas se todos fazem;.

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