Crônica da Cidade

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» Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 29/06/2016 00:00
Os três quizileiros

Em tempos de recessão, a ordem é economizar. Sei que algumas pessoas não precisam cortar gastos e apertar o cinco, pois não ganham em reais; faturam em surreais, a moeda imaginária dos que não precisam trabalhar para ficar milionários.

Como ganho em reais, resolvi reparar os sapatos e os óculos. Contudo, não é fácil encontrar serviços bons a um preço justo. Por isso, resolvi fazer um trabalho de utilidade pública sobre alguns quizileiros brasilienses. Calma, que explico.

Quizila é um vocábulo de origem africana. O nosso Aurelião registra como sinônimo para quizila: aversão espontânea e gratuita por algo ou por alguém. Mas também consigna: briga, rixa, pendência. Na sapataria do Mineiro, situada em um centro comercial do Lago Sul, próxima ao Jardim Botânico, um folheto anuncia: quizileiro.

Perguntei ao Mineiro que diabos era aquilo e ele explicou: quizileiro é o sujeito não foge da briga, topa qualquer encrenca. E, de fato, ressuscitou três pares de sapato que se encontravam em estado de ruína e retornaram à vida civil de maneira digna. Voltei lá com um guarda-chuva italiano avariado e ele também deu um jeito de fazer a geringonça abrir e fechar novamente.

Já disse um amigo metido a filósofo que sou uma pessoa com os pés no chão. De Marte. E, como se sabe, Marte é um lugar de muita poeira. Por isso, os meus sapatos precisam, algumas vezes, de cuidados especiais. Se o seu também está neste estado precário, recomendo os serviços do Chico, instalado na Barbearia do Onofre, na 708 Norte. O Chico é um cearense de Sobral, que tinha um açougue em Planaltina e matava 12 vacas por semana para atender a restaurantes, hotéis e clubes do Plano Piloto.

No entanto, com a chegada das grandes redes de supermercados, o açougue quebrou. Ele sobreviveu por algum tempo com uma banca de sapatos, mas acabou optando pela profissão de engraxate, que desempenha com dignidade e arte. O Chico deixa os seus sapatos impecáveis, sem nenhum vestígio da poeira de Marte. Detalhe: é um engraxate ilustrado, gosta de ler bons livros. Da próxima vez que eu aparecer por lá para espanar o pó sideral, levarei, a pedido do Chico, algum livro de Rubem Braga ou Machado de Assis.

A minha mulher quebrou os óculos e fomos a uma ótica para providenciar o reparo: ;Olha, só tem uma pessoa que conserta isso: é o Miguel Ourives, na 505 Sul;, avisou o funcionário da ótica. Eram quase ex-óculos. ;Será que tem conserto?;, perguntamos: ;Se não tiver, a gente faz outro;, respondeu Miguel, paraibano radicado em Brasília desde 1957. Ele se considera ;piotário;: ganhou muito dinheiro, mas aplicou tudo ajudando os outros. Trouxe mais de 200 pessoas da Paraíba para Brasília, mas, hoje, não tem um imóvel seu para morar.

Em poucos minutos, numa obra de ouriversaria, o emaranhado de arame e vidro voltou a ser óculos. Se você não ganha em surreais e precisa de um serviço decente e, ao mesmo tempo, econômico, recomendo os bons ofícios desses três quizileiros, que enfrentam qualquer parada: sapatos de Marte, óculos de Plutão, guarda-chuvas de Netuno...



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