Servidores devem R$ 171,3 bilhões em consignados

Servidores devem R$ 171,3 bilhões em consignados

Dos 11,3 milhões de funcionários, 70% possuem débitos %u2014 a média das famílias é de 58%. Só no consignado, as obrigações deles somam R$ 171,3 bilhões. Os 34,4 milhões que trabalham na iniciativa privada devem R$ 18,2 bilhões

» VERA BATISTA
postado em 01/08/2016 00:00
 (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)





Os servidores públicos tiveram aumento médio de 30% nos contracheques nos últimos cinco anos e ganham 40% a mais do que os trabalhadores da iniciativa privada. Mas a situação financeira da maior parte deles não é nada invejável: estão com a corda no pescoço. Só no crédito consignado, devem R$ 171,3 bilhões ; valor recorde ; a instituições financeiras, de acordo com dados do Banco Central (BC). A alta renda, aliada à garantia de estabilidade no emprego, leva essa categoria a se transformar em presa fácil para os bancos na concessão de crédito.

A gastança desenfreada levou 70% desse grupo de trabalhadores ao endividamento, aponta o Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo (Ibedec). Os dados são alarmantes já que a proporção é maior do que os 58% das famílias que declaram à Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), no mesmo período, ter dívidas entre cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro. Para piorar a situação, os 34,4 milhões de trabalhadores do setor privado devem, no consignado, aproximadamente um décimo do que os 11,3 milhões de servidores no consignado: R$ 18,2 bilhões.

A legislação estabelece que o comprometimento máximo do salário do servidor com o consignado é de 35%, dos quais 5% só podem ser usados para pagar a fatura do cartão de crédito. E quem controla o cumprimento da norma é o Ministério do Planejamento, explica o advogado Heleno Torres, professor de direito financeiro da Universidade de São Paulo (USP).

;Caso haja tentativa de ultrapassar o limite, o Planejamento não pode permitir o desconto. Se isso ocorrer, o gestor deve ser punido. Ainda há um controle das instituições financeiras e do BC. O problema é que eles acumulam o consignado com outras operações de crédito;, ressalta.

Descontrole

É difícil entender por que as pessoas chegam à situação de descontrole. ;Há assédio por parte de entidades que concedem crédito. Elas se aproveitam da falta de educação financeira e de brechas na legislação;, diz o economista Mauricio Godoi, da Saint Paul Escola de Negócios. ;O projeto de lei n; 355 de 2015, que determina que as expressões ;crédito gratuito;, ;sem juros e sem acréscimo; sejam abolidas da publicidade, está parado no Congresso Nacional;, critica.

Além da propaganda enganosa, há armadilhas que atraem os consumidores para aumentar o nível de endividamento, ressalta Eduardo Tambellini, sócio-diretor da GoOn, empresa especializada em gestão de risco, crédito e cobrança.;Se o consumidor paga parte significativa das parcelas, há a possibilidade de abrir nova margem consignável, desde que não ultrapasse o limite mensal de endividamento de 35%;, garante. Na prática, se o cliente já pagou mais de 20 parcelas de crédito consignado e tem bom relacionamento com a instituição, pode fazer nova operação, em prazo maior.

Quando o servidor recebe aumento, é imediatamente procurado com proposta de novo empréstimo. ;Se ganhava R$ 10 mil, passou para R$ 12 mil, abriu margem para outro empréstimo;, conta Tambellini.

O processo de endividamento dos servidores começa assim que ele vai ao banco abrir a conta depois que toma posse no concurso, explica o advogado Enil Henrique de Souza Neto, da Lourenço Advocacia e Advogados Associados.

Primeiro, os gerentes oferecem um leque de operações de crédito. O consignado, cheque especial, crédito direto ao consumidor e cartão de crédito.

Joaquim Pinto, 59 anos, agente administrativo do Ministério da Saúde, é um dos que sofrem com as obrigações financeiras. Com salário de R$ 4 mil mensais, tem 20% da renda comprometida com o consignado. Além disso, usa o cartão de crédito e o cheque especial. ;Tiro de um canto para ajeitar o outro. Estou há 20 anos nessa luta. O salário está achatado. Os aumentos são abaixo da inflação;, justifica-se Pinto.

Ele diz que ainda não se aposentou para evitar o baque na renda com a perda da gratificação. Precisou, inclusive, cancelar o plano de saúde da Geap Autogestão. ;Antes, eu tinha cinco dependentes. Os filhos cresceram. Hoje somos eu e minha mulher. Mas a mensalidade que era R$ 675 passou para R$ 1.060;, conta. Pinto comenta que ele e muitos colegas recebem, na porta dos ministérios, ofertas de crédito.;O assédio é grande. Primeiro, dão tudo, depois, colocam uma empresa de cobrança atrás da gente;, critica.


As agruras de Joaquim são as mesmas de Sandra Eleto, 56 anos, dos quais 31 dedicados ao serviço público. Com um salário de R$ 5 mil, conta ter dívidas a perder de vistas. Está sem margem para consignados porque, há seis anos, fez um empréstimo para ajudar o filho a pagar o casamento, contrato que ainda não quitou. ;Pago tudo no cartão de crédito, mas estou com as contas em dia;, afirma. Jansen Fonseca, 32, deixou a lista dos endividados há pouco tempo. Analista de planejamento, ele tem um salário de R$ 10 mil, em muitos meses insuficiente para pagar tudo de que precisa. ;Passei cinco anos endividado. Tive que reduzir o lazer para me equilibrar;, confessa.

;Há assédio por parte de entidades que concedem crédito. Elas se aproveitam da falta de educação financeira e de brechas na legislação;
Mauricio Godoi, economista da Saint Paul Escola de Negócios

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