Tempo de esperança para os refugiados

Tempo de esperança para os refugiados

Chegada da seleção iraquiana em Brasília revive histórias de refugiados do país que deixaram a nação de origem para escapar do caos dos anos de guerra com os Estados Unidos. Por aqui, eles encontraram liberdade e oportunidades

postado em 01/08/2016 00:00
 (foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Rodrigo Nunes/Esp. CB/D.A Press)


Brasília sediará partidas da seleção iraquiana em 4 e 7 de agosto. O desembarque na capital federal marca o fim do jejum do grupo no futebol. A última participação ocorreu há 12 anos, em Atenas. A presença da equipe na competição olímpica, entretanto, vai além do esporte: resgata histórias de 250 iraquianos reconhecidos pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) que, profundamente marcados por barbáries políticas e religiosas, buscaram, em território brasileiro, um recomeço antes improvável.

É o caso do comerciante Hamid Jassm. O refugiado de 61 anos veio a Brasília para compor o corpo diplomático iraquiano em 2002. Por sorte, não estava presente durante a invasão das tropas americanas ao país, instaurada mediante a justificativa de que o líder Saddam Hussein detinha armas químicas, em 2003. Ainda assim, o episódio tirou do ex-morador de Bagdá uma pessoa importante, o filho dele. ;A guerra arrancou as coisas mais bonitas da minha vida. Destruiu minha família, meu país;, lamenta.

A perda, a instabilidade política provinda da queda de Saddam Hussein e o caos pós-guerrilha levaram Hamid a pedir asilo no Brasil. ;Acabaram com a minha terra. Não há água, luz, medicamentos, seguro de saúde. Não existe segurança e, muito menos, acesso à educação. O Iraque era um deserto à época, e a situação não mudará. Muitos choram pela volta de Saddam. Com ele, nossa moeda era forte, éramos alguém. Alguns não entenderão o que eu digo, porque não passaram pelo que passamos;, comenta.

Após a aprovação do pedido de refúgio pelo Conare, o iraquiano decidiu recomeçar. Em Sobradinho, criou a loja de utensílios Shopping do Habib que, hoje, garante o sustento dele e da mulher. O estabelecimento oferece ampla gama de produtos. O estoque vai de vasilhas a bijuterias e peças de roupa. Orgulhoso do progresso, ele agradece, repetidas vezes, ao abrigo concedido pelo governo brasileiro. ;Abriram grandes portas para mim. Não me ofereceram apenas um lugar para ficar e, sim, uma oportunidade de viver em paz. Sou livre. Posso trabalhar e me expressar. Tenho um lar. Isso é tudo que importa;.

A felicidade, no entanto, se esvai quando o assunto é a participação iraquiana nas Olimpíadas. Hamid afirma que o contentamento vendido durante eventos esportivos não deve esconder a realidade daqueles que vivenciam batalhas diárias em seu país. ;Não gosto de falar sobre isso. Enquanto pessoas morrem devido às péssimas condições de vida, equipes viajam mostrando sorrisos por aí. O Iraque grita por socorro;, ressalta.

O desejo de ver o país prosperar é estampado em cada frase. A volta à terra de origem, porém, é descartada por uma série de razões. Quando abandonou o posto diplomático, Hamid abriu mão, também, de seu passaporte ; o que inviabiliza viagens a territórios internacionais. Além disso, Hamid se nega a presenciar as correntes medidas políticas iraquianas. ;Gostaria muito de ajudar meu povo, meu país. Mas não serei conivente com um governo corrupto. Então, me resta orar por aqueles que ainda estão lá;, explica. Apesar de se expressar bem em português, para obter o documento brasileiro, ele ainda precisa fazer uma prova que comprove pleno domínio na língua escrita.



Novo lar
A família dos irmãos Hassan Rasim, 19 anos, e Hussein Rasim, 18, deixou o território iraquiano há quatro anos em razão de conflitos religiosos. Lá, xiitas e sunitas se enfrentam desde o ano 632. Bagdá, cidade na qual moravam, à época, ainda não fora alvo de ataques terroristas, mas os bombardeios se alastravam pelo país. Assim, o temor de perder entes queridos levou o pai dos garotos a pedir refúgio em terras brasileiras. ;Saímos por prevenção. Quando a guerra se aproxima, é muito difícil escapar com vida;, conta Hussein.

A escolha do país de destino foi guiada pelo comerciante Hamid. O grande amigo pediu que todos os integrantes da família viessem a Brasília e se propôs a ajudar, junto ao Instituto de Migrações e Direitos Humanos (IMDH), no que fosse necessário. A partida foi dura: tios, avós e primos ficaram na capital iraquiana. A preocupação é amenizada com ligações diárias. ;Sempre ficamos alguns minutos ao telefone com eles. A saudade é grande, mas acredito que fizemos a coisa certa;, diz Hassan.

Ao chegar à capital federal, o pai dos meninos ; que não fala português ; trabalhou em uma loja de lanches. Pouco tempo depois, foi encorajado por Hamid a montar um negócio próprio, o Lava-Jato Bagdá. O empreendimento é administrado pelos jovens. ;É um pouco cansativo, mas pelo menos temos nossa liberdade garantida. Em um futuro próximo, espero ingressar na universidade e proporcionar um futuro melhor aos meus pais;, afirma Hussein. A concretização do sonho, por enquanto, é utópica. O garoto de 18 anos deixou todos os documentos no Iraque, por isso, não pôde iniciar os estudos ou trabalhar com carteira assinada em território brasileiro. ;Quando nossa situação financeira estiver melhor, voltarei lá para buscar tudo e começar uma nova vida;, garante.

Os irmãos asseguram, no entanto, que a visita ao país de origem será rápida. Ambos pretendem permanecer no Brasil. ;Vocês não têm noção da liberdade que detêm. Aqui, posso estudar o que quiser, manifestar minha fé. Sou livre, e isso é tudo que quero pelo resto da minha vida;, emociona-se Hassan.

O amor pela terra tupiniquim será somado, durante esta semana, à felicitação por receber, no novo lar, a seleção iraquiana de futebol. Os jovens comparecerão ao Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha para empurrar o país de origem à vitória. ;Ganhamos os ingressos da Embaixada do Iraque. Não consigo descrever o tamanho da nossa felicidade. Sempre acompanhamos esse esporte pela tevê e, agora, teremos a oportunidade de sentir tudo ao vivo;, comemora Hassan.



;Não me ofereceram apenas um lugar para ficar e, sim, uma oportunidade de viver em paz. Sou livre. Posso trabalhar e me expressar. Tenho um lar. Isso é tudo que importa;
Hamid Jassm, comerciante

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