O Brasil depois da vitrine

O Brasil depois da vitrine

Olimpíadas fecham ciclo de grandes eventos esportivos no país com uma interrogação sobre o real legado dos investimentos bilionários feitos pelo Poder Público. Para especialistas, Jogos terão impacto maior do que a Copa

PAULO DE TARSO LYRA
postado em 01/08/2016 00:00
 (foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)
(foto: Yasuyoshi Chiba/AFP)


Daqui a quatro dias, quando a pira olímpica for acesa no estádio do Maracanã, os brasileiros começarão a saber se os jogos, em si, darão certo, assim como aconteceu com a Copa do Mundo, que teve sucesso de público e não registrou maiores problemas extracampo. O problema é que eventos desse porte não se resumem apenas ao período em que são realizados. No caso da Copa, por exemplo, boa parte do legado segue inconcluso ou jamais será entregue. Já nas Olimpíadas, o mito de repetir a reinvenção de Barcelona, em 1992, é cada vez mais uma utopia.

Há dois anos, o receio nacional era de que houvesse caos aéreo ou transtornos no deslocamento de delegações e turistas pelas obras inacabadas de mobilidade urbana. O fantasma das manifestações de rua também era grande, já que, um ano antes, milhares de pessoas tinham lotado as cidades das capitais brasileiras protestando contra os serviços públicos oferecidos pelos governantes. A Copa deu certo, o legado, não.

Grande vitrine do evento, as arenas esportivas acumulam prejuízos. Os governadores das 12 cidades-sede pleiteiam com o presidente interino, Michel Temer, a renegociação das dívidas contraídas junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção dos estádios ; um montante de R$ 2,4 bilhões. A maioria das arenas tornou-se deficitária e muitas delas, como o Maracanã e o Itaquerão, construídos pela Odebrecht, são investigados por denúncias de corrupção. Na questão da mobilidade, mais da metade das obras não foi concluída. Dos aeroportos, o novo terminal de Fortaleza simplesmente não aconteceu.

Às vésperas dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, o país não conseguiu despoluir as águas da Baía da Guanabara e não cumprirá diversas promessas ambientais firmadas quando o Rio foi escolhido como cidade-sede. O medo de que a cidade seja alvo de atentados existe, a violência urbana, que tinha sido mitigada pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) voltou intensamente e persistem os problemas crônicos na Vila que receberá os atletas durante a competição. ;Talvez o único legado concreto que os jogos deixarão para o Rio será a revitalização da zona portuária da cidade;, resumiu o coordenador do curso de relações internacionais das Faculdades Rio Branco, Gunther Rudzit.

Pelo ralo
Para ele, o país perdeu a oportunidade de dar um salto após sediar os dois principais eventos esportivos mundiais por causa da corrupção. ;E não estou falando apenas da corrupção em nível federal, o que poderia ser fácil. Há corrupção nos níveis estadual e municipal;, disse Gunther. Ele cita, por exemplo, a não construção do metrô ligando o centro da cidade ao terminal de Guarulhos, em São Paulo, e o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) de Cuiabá (MT), que ;liga nada a lugar nenhum;. ;Isso sem falar no aeroporto de Fortaleza, que não saiu do papel e da arena de Manaus, que é muito cara e atende um campeonato deficitário.;

O coordenador dos cursos de relações internacionais do Ibmec-RJ, José Luiz Niemeyer, tem visão mais otimista. ;Por ser concentrada em uma cidade só, com menos pressão política, as coisas ficaram mais fáceis no caso da Olimpíada do que da Copa do Mundo, por exemplo;, disse ele. ;O legado de infraestrutura será importante. O Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ajuda na mobilidade, assim como o metrô para a Barra;, elogiou.

Niemeyer acredita ainda que existe um legado subjetivo, que é a capacidade de o país receber bem seus convidados. ;Acabei de voltar para a casa, passando pela orla, e as ruas estão lotadas, com gente nas calçadas, nos bares e nos restaurantes;. O professor não se retrai nem diante das sucessivas notícias de aumento nos índices de violência urbana. ;Às vezes, vestimos um complexo de vira-lata. Existe violência nos subúrbios parisienses, em diversos estados americanos e no interior da China;, declarou ele.



Retorno questionável

Confira a herança da Copa do Mundo de 2014 para o Brasil

Aeroportos
; 5 prontos
; 1 incompleto
; 6 atrasados

Estádios
; 12 prontos
Estados querem refinanciar empréstimos contraídos junto ao BNDES ; R$ 2,4 bilhões

Mobilidade urbana (obras)
; 1 pronta
; 4 incompletas
; 7 atrasadas

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