Outra vítima: a criança

Outra vítima: a criança

Quando a agressão é dentro de casa, o número de afetados aumenta. No caso dos pequenos, o sofrimento vem com a perda da mãe e o trauma que seguirá pelo resto da vida. Ajuda psicológica é fundamental

CAMILA COSTA
postado em 01/08/2016 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)



Um vídeo nas redes sociais mostra uma criança desesperada. As roupas dela estão sujas de sangue. Chorando e aos gritos, pede ajuda em um hospital. É para a mãe, que está dentro de um táxi, morrendo. Foi esfaqueada pelo ex-marido, na frente da menina de 7 anos. O caso foi registrado no Rio de Janeiro, mas a realidade não é diferente na capital do país. Dos sete feminicídios registrados desde janeiro, três foram cometidos na frente dos filhos da vítima. Para cada um dos envolvidos na tragédia, há uma pena. O autor, se for preso, ficará mais tempo em reclusão. A vítima teve a vida interrompida. Já as crianças sofrem duas vezes: perdem a mãe e levarão consigo os traumas adquiridos.

Independentemente da idade, não há como a criança sair ilesa depois de presenciar uma cena de tamanha violência. De acordo com especialistas, não existem muitos estudos que mostrem o reflexo dessa exposição ao longo da vida, mas o processo físico e emocional de cada menor revela por si só que esse impacto pode permanecer pela vida toda e se manifestar em diferentes transtornos psiquiátricos. Um dos mais sérios, o estresse pós-traumático, aparece em todas as idades, traz ansiedade, depressão, agressividade. Em qualquer situação, o mais importante é buscar ajuda psicológica imediata.

Mateus*, 6 anos, é uma criança normal. Carinhoso com a família, brinca com os amigos, mas precisa de atenção especial. Quando tinha 2 anos, a mãe dele, Maria Cristina*, foi morta pelo marido, na casa da família, no Riacho Fundo. O autor estrangulou e asfixiou a mulher de 19 anos. A criança viu tudo. Desde que passou a viver com a tia, Denise*, 36, reproduz as cenas a que foi exposto. ;Quando está muito nervoso, ele pega no meu pescoço, no do meu marido. Se tiver animal perto, cachorro ou gato, ele também quer pegar. Eu digo: ;Filho, mamãe te ama, isso não pode;. E vamos acalmando;, revela a professora. Denise também é psicanalista, o que ajudou no processo.



Traumas
Assim que notou os traumas, Denise começou um tratamento com a criança. ;Mesmo com todo acompanhamento, não tem jeito. Ele vai levar para o resto da vida. Vejo que, quanto mais ele cresce, mais se lembra. Este ano, ele já me perguntou duas vezes se o pai dele matou a mãe;, conta a tia. Quatro anos depois, um crime semelhante. Há duas semanas, Vanda*, 37, foi morta em casa, em Planaltina, estrangulada e asfixiada. Até agora, o marido é o suspeito. Os dois estavam em casa com a filha de 3 anos e teriam discutido. Juraci*, 47, e a menina estão desaparecidos desde a data do assassinato.

Os casos não param: Maria*, 17, fez o que pôde. Segurou a mãe nos braços, fez respiração boca a boca, mas não conseguiu evitar a morte de Elenita*, 46. O pai dela, Miguel, 43, golpeou a mãe com uma faca após uma discussão em abril deste ano. Ele foi preso enquanto bebia em um bar, em Sobradinho 1, onde a família vivia. ;Vida normal, jamais. A filha ou o filho ficará psicológica e emocionalmente comprometido para sempre. Mesmo que faça terapia ; e certamente é necessário que o faça ;, o trauma é muito grande;, observa a socióloga e professora da Universidade de Brasília (UnB) Lourdes Bandeira.

Segundo a especialista, o crime, quando cometido pelo pai, traz ainda um duplo sentimento e uma contradição interior para a criança ou o adolescente. ;Eles entram em um profundo paradoxo. Alguém que a gerou, faz parte da vida dela, tem profundo amor, do dia para a noite se vê na necessidade de odiar, de esquecer. É um drama, um conflito, uma tragédia permanente;, explica. Outras sequelas, indica a professora, são suscetíveis de aparecer anos após o trauma. Meninos podem reproduzir a violência, enquanto as meninas se vitimizam e acreditam que elas serão, assim como a mãe, agredidas e mortas pelos futuros companheiros.




Feminicídio
A lei do feminicídio foi sancionada em março de 2015. A norma tipifica o ato como crime hediondo e o torna um homicídio qualificado. A classificação aumenta a pena, que pode variar de 12 a 30 anos, e impede a liberação após pagamento de fiança. O texto altera o Código Penal e sobe a pena em um terço, se o assassinato ocorrer em algumas condições: durante a gravidez ou no trimestre posterior ao parto, contra mulher de mais de 60 anos, for deficiente e se o crime ocorrer em frente a um parente da vítima. O feminicídio se caracteriza por crimes cometidos, por exemplo, no ambiente doméstico e que têm o componente gênero como motivação.

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