Segurança autônoma

Segurança autônoma

Sistema que mapeia o terreno abaixo das estradas promete deixar os veículos que dispensam motoristas seguros o suficiente para serem adotados em larga escala

postado em 19/09/2016 00:00





Uma nova tecnologia de localização para carros autônomos ; que dispensam motoristas ; foi criada pelo Lincoln Laboratory, centro de pesquisa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). O Radar de Localização por Penetração do Solo (LGPR, na sigla em inglês) promete manter o carro na pista, mesmo em condições adversas de tempo, como chuva pesada, neve ou neblina.


O aparelho é instalado na parte de baixo do veículo, entre as rodas dianteiras, a 15cm do chão, e emite ondas de alta frequência para mapear o subsolo das estradas, detectando as diferentes camadas de solo, pedras e demais características geológicas a até 3m de profundidade. Desse modo, é possível criar um mapa em 3D que, comparado com as leituras em tempo real do radar, detecta a localização do veículo com uma precisão de 4cm a velocidades de até 100km/h.


O LGPR resolve um problema fundamental dos sistemas de localização utilizados atualmente, que usam câmeras de vídeo, sinais de GPS e o chamado LIDAR, aparelho formado por um conjunto de câmeras especiais e emissores de laser para detectar objetos próximos ao veículo e marcações na estrada. Como esses equipamentos são baseados em sistemas óticos, que utilizam a luz, eles são muito suscetíveis às variações do tempo, e seu funcionamento chega a ser impossível sob chuva ou neblina.


;Os sistemas atuais são impressionantes, mas, mesmo em condições normais, não têm a mesma capacidade de manter o carro na pista que um motorista humano;, afirma ao Correio Byron Stanley, pesquisador-chefe do programa LGPR. ;Para que os carros autônomos possam ser utilizados em larga escala, eles precisam se manter na pista seguramente, e é aí que o LGPR entra.;


Complemento
O radar funciona porque se orienta a partir do solo abaixo das estradas, que se mantém estável ao longo do tempo, pois é compactado durante a construção das vias e pelo movimento constante de veículos. Porém, ele não é à prova de falhas. ;Grandes regiões com mudanças rápidas no subsolo são um desafio para o LGPR, o que demonstra a importância da utilização conjunta de diversas tecnologias de localização;, diz Byron.


O novo sistema, portanto, não pretende substituir os existentes, mas sim complementá-los, para tornar o carro autônomo seguro o suficiente para sua utilização em massa. Por exemplo, se as marcas na estrada ou objetos próximos não estão visíveis devido a uma forte chuva ou poeira, o LGPR consegue manter o carro na pista sozinho.


Apesar de ser um importante passo para o desenvolvimento do carro totalmente autônomo, ainda há muitas melhorias a serem feitas no aparelho. Assim como o GPS, o radar precisa de um mapeamento das ruas para se localizar. Porém, um mapa subterrâneo completo das vias dos Estados Unidos ocuparia 740 terabytes de informação, ou aproximadamente 150 vezes o espaço de armazenamento de um computador moderno.


É possível contornar esse problema limitando os mapas armazenados a pequenas regiões, como cidades, e utilizando conexões de internet 4G para baixar as informações em tempo real. Isto, contudo, consumiria uma grande quantidade de dados dos planos de internet móvel, e está longe de ser uma solução ideal.


O valor dos sistemas utilizados em carros autônomos ainda é um grande impeditivo do uso em larga escala. ;Tornar um carro autônomo, muitas vezes, custa mais que o próprio veículo, o que dificulta a inserção desse tipo de produto no mercado;, afirma o professor Guilherme Pereira, coordenador do projeto de veículos autônomos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Um aspecto positivo do LGPR, nesse sentido, é a utilização de materiais de baixo custo e já disponíveis no mercado, o que atrai o interesse da indústria automotiva. ;Estamos em meio a diversos processos de transferência de tecnologia, patenteamento e discussões de colaboração comercial;, afirma Byron.

Para saber mais
Impacto no futuro

Acidentes de trânsito mataram mais de 1,25 milhão de pessoas em 2013, sendo 42 milhões delas no Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os carros autônomos prometem reduzir drasticamente esses números ou até eliminá-los, reduzindo a chance de acidentes automobilísticos a quase zero e salvando milhões de vidas. Além disso, a utilização de veículos sem motoristas diminuiria o tempo perdido no trânsito, porque permitiria que o passageiro trabalhasse ou descansasse no caminho para o escritório. Dados de uma pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo e pela Fecomércio mostram que, na capital paulista, cidade com a maior frota de automóveis do país, o tempo médio gasto no trânsito por dia, em 2015, foi de 1 hora e 44 minutos, tempo suficiente para assistir dois episódios de um seriado.


Outro efeito no qual alguns especialistas apostam seria a mudança da relação do usuário com o automóvel. Possuir um carro pode se tornar menos atraente. Com empresas controlando os veículos, o serviço poderá funcionar como um táxi, com o cliente chamando um carro no momento que precisar, ou por meio de um ;aluguel;, com o pagamento de uma taxa periódica para a utilização do automóvel.


Outros usos
Essa capacidade de ;leitura; do subsolo possibilita o uso da tecnologia também para a navegação de veículos em minas, onde não há sinal de GPS; o mapeamento de infraestruturas subterrâneas e encanamentos; a inspeção de pontes e estradas e até mesmo a navegação de veículos autônomos na superfície de Marte.

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