Os rapazes da geração Y

Os rapazes da geração Y

Na última semana, três dos cinco livros mais vendidos no país são de autoria de jovens com menos de 30 anos. Uma tendência que tende a aumentar

» Rebeca Oliveira
postado em 19/09/2016 00:00
 (foto: Leo Aversa/Divulgacao - 17/3/11 )
(foto: Leo Aversa/Divulgacao - 17/3/11 )







A escrita começou como uma brincadeira. Poesias curtas e reflexivas disfarçavam-se por entre traços negros estampados em folhas de guardanapos. Publicadas na internet, as imagens fizeram sucesso e chamaram atenção de uma editora. Foi assim que Pedro Gabriel, escritor nascido em Chade, no meio da África, e radicado no Brasil, publicou o primeiro livro, Eu me chamo Antônio (2013), uma coletânea em que apresentava aos seguidores da web e a um público mais abrangente os dizeres de um personagem sem rosto.

A obra ficou semanas seguidas na lista dos mais vendidos, com cerca de 100 mil exemplares comercializados. O feito, raro em um mercado editorial combalido pela crise, não foi sorte de principiante. Com Segundo (2014), a cena se repetiu e a obra voltou a ocupar uma boa posição. Agora, com a terceira publicação, Ilustre poesia, o jovem autor, na casa dos 30 anos, aumenta a lista de escritores da geração Y ; aqueles nascidos entre 1980 e 1990 ; recorrentes na lista de mais vendidos.

Na última semana, em ranking divulgado pelo site especializado PublishNews, três dos cinco livros de não-ficção campeões de audiência têm autoria de jovens da mesma faixa etária que Pedro. Em comum, todos se tornaram fenômenos virtuais antes de enveredarem pelo formato tradicional. Tá gravando. E agora?, de Kéfera Buchmann; O diário secreto, de Gusta Stockler; e Minha vida antes do invento da hora, de Lucas Lira, foram as publicações mais lembradas pelos leitores.

A situação pode dar um novo ânimo aos esquálidos dados divulgados este ano pela pesquisa Retratos da leitura no Brasil, realizado pelo Ibope, quando foi constatado que 44% da população brasileira não leem e 30% nunca compraram um livro. A despeito de quem critica ou subvaloriza o conteúdo apresentado, esses autores surfam na boa fase, fazem o mercado girar e mantêm-se alheios aos haters. ;Será cada vez mais comum que autores apareçam por causa das redes sociais. Como em todo segmento, existem os bons e os maus profissionais. Agora, a gente não pode rotular como ;literatura fast-food; ou ;poesia menor; tudo o que surge do universo on-line. Isso é ignorância de quem não consegue enxergar beleza nas mudanças do nosso mundo. Esse é o nosso presente. E esse será o nosso futuro por um bom tempo;, afirma Pedro Gabriel.

Segundo o escritor, o diálogo entre artista e público consumidor deverá ser cada vez mais afinado e aproximado. ;O artista está e estará cada vez mais presente no diálogo com seu leitor. O poeta sabe e saberá cada vez mais quem é seu leitor. E, por outro lado, as editoras acabam tendo, além de um autor, um parceiro de marketing. Todos esses fatores, sem dúvida, ajudam o sucesso de uma determinada publicação. Quem não conseguir se adaptar, paciência...;, emenda o autor.



Ilustre Poesia

Terceiro livro de Pedro Gabriel. Intrínseca, 224 páginas.
Preço médio: R$ 29,90.

Simbiose
Professora de teoria literária da UFBA e pesquisadora de formas contemporâneas do romance, vida literária no século 21 e os conceitos de autoria, performance e campo literário, Luciene Azevedo percebe de maneira positiva a circulação literária entre a web e o livro no formato tradicional. ;Não deixa de ser curioso a simbiose buscada pelo mercado editorial com essas plataformas virtuais, pois muitos sucessos que nascem na rede são ;cooptados; rapidamente, por grandes editoras e têm suas produções publicadas em papel. A presença desses autores na Bienal do Livro de São Paulo e seu séquito de fãs é um dado que merece atenção. No que diz respeito ao texto, o que mais me interessa é grande parte desses autores revelar ter começado a escrever fanfics, textos que ampliam, modificam, reescrevem outros livros de culto desses autores. O que, por sua vez, sugere uma revisão da noção de obra e de autoria;, defende.

No aspecto qualitativo, a especialista em literatura contemporânea não vê distinção entre a literatura que vem da internet ao que se experimenta em qualquer livraria. ;Também na produção impressa, o leitor se depara com muita coisa ruim. O fato é que ainda não contamos com estudos que se debruçaram sobre os textos. Pode haver, sim, muita coisa ruim, que apenas reforça a expectativa dos leitores e coloca em xeque a denominação de literatura dos textos;, avalia. No entanto, ela defende que o mercado editorial não pode se apoiar no segmento de novos autores, sobretudo os da geração Y conectados a internet uma salvação em meio à crise. ;Se se trata apenas de vender, daqui a pouco surge outro fenômeno editorial eleito como a bola da vez;, acredita.

Duas perguntas/Pedro Gabriel


Quem leu seus dois outros livros nota em Ilustre
poesia um tom mais reflexivo e, por vezes,
até introspectivo. Essa mudança foi proposital?

Sim, Ilustre poesia marca uma ruptura. É uma narrativa que se distancia dos dois primeiros livros, mas que mantém um forte elo criativo com o universo do personagem Antônio. O meu primeiro livro, Eu me chamo Antônio (2013), foi marcado pelo medo danado de não dar certo. Há a presença muito mais marcante de trocadilhos ou frases espontâneas. No Segundo (2014) fica mais visível o meu desejo, mesmo que tímido, de libertar as palavras para além das fronteiras dos guardanapos. Ilustre poesia, de certa forma, encerra uma espécie de trilogia de um pré-romance. A prosa está mais presente e as ilustrações dialogam constantemente com as palavras desenhadas em cada página. Com essa nova publicação, dou mais um passo em direção à promessa do romance. Afinal, Antônio é um personagem de um romance que está sendo escrito, vivido.

;Prefiro me apresentar pelo que me assusta;,
diz um de seus textos. O que mais o assustaria,
hoje, em uma breve análise do contexto sociocultural do país?

No contexto do livro, a ideia era mostrar que a poesia ; pelo menos, a minha poesia ; revela os medos do poeta e que, para conhecer alguém a fundo, no lugar de perguntar o nome ou as vontades daquela pessoa, deveríamos questionar o que mais as assusta. Cada guardanapo revela um pouco do que sou. Hoje, o que mais me assustaria seria não ter a capacidade de conhecer as profundezas ou o universo da nossa geração tão conectada ao irreal. Talvez a ideia por trás do livro Ilustre Poesia seja justamente mostrar que, apesar da tecnologia, as pessoas ainda se sentem tocadas por poesia. O modem da sensibilidade ainda dá sinal de vida.

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