O céu que não nos protege

O céu que não nos protege

Premiado com três Kikitos, em Gramado, O silêncio do céu estreia na quinta, com Carolina Dieckmann. Em cena, omissões num processo de estupro

» Ricardo Daehn
postado em 19/09/2016 00:00
 (foto: California Filmes/Divulgação - 22/1/16)
(foto: California Filmes/Divulgação - 22/1/16)



Cantarolando Corcovado, de Tom Jobim, o casal Mario e Diana tenta superar o vácuo de um diálogo, no novo filme de Marco Dutra, O silêncio do céu. ;Precisei de uma cena que iluminasse melhor o passado deles, a época em que eram conectados e felizes. Porque todo o enredo já começa com um trauma;, explica Dutra, às vésperas do lançamento do filme.

Mesmo relutante, quando observa a produção dele em longas, com filmes como Trabalhar cansa (2011) e Quando eu era vivo (2014), Marco Dutra consegue ver conexões no cinema em que investe. ;Identifico, por exemplo, que eu já fiz muitas coisas sobre a classe média, sobre a ruptura da família. Lido com problemas latentes, aparentes ou não. Invisto no universo doméstico, com a ruptura deste ambiente. Tem a ver com o como eu cresci, em São Paulo. Vim de família levemente conservadora, com valores muito, muito afirmados na classe média;, comenta.

O silêncio do céu, que estreia na próxima quinta, tem roteiro assinado por Caetano Gotardo, pela argentina Lucía Puenzo (escritora filha do autor de A história oficial, Luis Puenzo) e pelo autor do livro Era el cielo, o poeta e dramaturgo Sergio Bizzio. ;Lucía, mesmo com todo sucesso, é muito pé no chão e acessível. Ambos, ela e Bizzio, com quem conversava por Skype, foram compreensivos quanto ao crescimento da trama no roteiro;, observa Marco Dutra. Filmada no Uruguai, a fita conta com a famosa atriz uruguaia Mirella Pascual e com os atores argentinos Chino Darín (filho do reconhecido Ricardo) e Leonardo Sbaraglia.

Logo de cara, a fita estrelada por Carolina Dieckmann tem estampada uma cena de sexo. ;A coisa do sensacionalismo, ou do choque, não me interessa muito, pelo assunto complicado que tratamos. O filme sempre teve um peso trágico. Determinei que a gente ia retratar de modo a não ter nenhum tipo de fetiche envolvido. Quisemos uma cena puramente de violência e de invasão. Não era sexo o que a gente estava mostrando: era algo puramente violento;, explica o cineasta. O workaholic Marco Dutra conta que queria dar peso na cor do mundo violento representado, buscando universo tão vivo e colorido a ponto de se revelar agressivo.

Numa batida mais serena, Marco Dutra investiu na música que ele mesmo compôs, a exemplo do que fez em filmes como Sinfonia da necrópole, O que se move e de outro filme dele, Quando eu era vivo. A maioria das criações, em frente ao piano. Sintonia, igualmente, foi uma preocupação do cineasta que alinhou a interpretação de atores com formações muito diversas: Leonardo Sbaraglia e Carolina Dieckmann. Malena (Mirella Pascual) e Néstor (Chino Darín), mãe e filho, em perturbadora relação, também empolgaram Marco Dutra. ;Mirella é incrível, e a personagem dela é meio mística, tem algo de feiticeira, tem algo muito obscuro, e que ela consegue transmitir só no olhar;, derrete-se.

Perspectivas

Com filmes já exibidos em Cannes, na parceria com a colega Juliana Rojas, Marco Dutra conta da sólida amizade com a coautora de Trabalhar cansa. ;A gente tem uma parceria que é muito antiga desde a faculdade. Mas, não temos nenhum dogma a respeito disso, pelo contrário. Nosso próximo filme será As boas maneiras, já filmado. É um terror, um filme com o fantástico;, adianta. As boas maneiras trata da criação de uma criança lobisomem. Arriscado, não? ;Foi mais natural querer fazer filme fantástico do que não querer. Não, na verdade, fico excitado pelo desafio: não arriscar? ; nunca. Quero levar para a realização as ideias animadoras;, conclui.

>> Entrevista Carolina Dieckmann


Você parece mais aperfeiçoada, como atriz,
no cinema... Como você vê a receptividade nos meios?

No cinema, o tempo de preparação do personagem já faz toda a diferença. Durante muitos anos, as novelas não tinham essa preparação antes, o processo lá é todo mais rápido mesmo. Há outra questão: quando você está vendo uma novela, em casa, poucas são as vezes em que você não deixa ninguém falar, o telefone não toca ; há mais intervenções. No cinema, elas são totalmente proibitivas. É uma sala escura, é um som alto. As pessoas querem tirar o proveito máximo dessa experiência. A maneira como o espectador se coloca já faz toda diferença.

Como foi atuar em espanhol?
Foi uma dificuldade muito grande para mim porque eu não falava quase nada de espanhol, e eu tinha uma preocupação muito grande em falar a língua de uma maneira natural. Normalmente, quando a gente aprende a falar uma outra língua, principalmente o espanhol e o italiano, que são línguas muito cantadas, você tem a tendência a pegar um sotaque, a pegar uma musicalidade, que para meu personagem não seria bom, em termos de sentido. Pude criar um pano de fundo para que pudesse até excluir algumas palavras que eu não conseguisse falar com tanta naturalidade.

Um diretor homem, no cinema, e tratando
de um tema delicado que avança em estupro.
Teria diferença, se fosse uma diretora?

Sempre vai existir diferença. Somos diferentes mesmo: temos temperamento e temperatura diferentes. A mulher é totalmente hormonal. O que não significa que você não pode ter uma visão masculina totalmente delicada e sensível e até mesmo uma visão feminina totalmente masculinizada ou violenta ou masculinizada. Não acho que uma coisa invalide a outra, mas diferenças sempre existirão.

Onde andará Dulce Veiga?, Entre nós e O silêncio
do céu são filmes que te mostram amadurecida
e despida de maiores vaidades, não?

Isso se deve a cada projeto em si. Acho que os projetos que escolhi e a liberdade que se tem no cinema são distintos em relação à tevê, vêm noutra escala. O silêncio do céu é uma coisa que a gente não vê na televisão, nem seria possível, não é feito para o formato. Eu acho que eu estou sempre despida, sou uma atriz totalmente presente, do tipo que, quando faz qualquer trabalho, desde muito nova, sempre estive muito presente e de peito aberto. Naquela cena que foi muito falada do Laços de família, da cabeça raspada, lá, muito nova, eu já estava totalmente aberta, sem receios ou respaldos.

O novo filme não erotiza a cena do estupro, como esperado,
claro. Mas, quanto à nudez, o que ficou do episódio de
ter sido publicamente exposta, pelas fotos vazadas na internet?

Realmente, não tenho nenhuma questão, pelo contexto do meu trabalho, e acho que o ator precisa ter o corpo a serviço dos personagens. Em nenhuma conversa minha com diretor fiquei preocupada com o que ia ser mostrado e o que não ia: não há este limitador para mim. O que aconteceu comigo, na minha vida pessoal, foi crime que eu acho que consegui que fosse discutido e tratado como crime. Po

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