Sobre burcas e biquínis

Sobre burcas e biquínis

MÔNICA SIFUENTES Desembargadora federal
postado em 07/10/2016 00:00



A cena inusitada foi registrada por um fotógrafo amador em Nice, na França ; três policiais sisudos, de armas na cintura, obrigavam uma senhora, que estava sentada calmamente na areia da praia, a tirar a roupa. A foto caiu imediatamente nas redes sociais e causou indignação no mundo todo. A mulher em questão estava usando um ;burkini; ; roupa de banho cujo uso havia sido proibido em mais de 30 balneários franceses. A medida significou para as muçulmanas, na prática, a impossibilidade de frequentarem a praia, pois a sua religião as proíbe de usar maiôs convencionais. Curiosamente, na mesma semana a França realizava uma grande exposição para celebrar os 70 anos da criação do biquíni. Não é demais lembrar que o uso do biquíni já foi considerado amoral e subversivo. Em alguns países mulheres foram obrigadas a pagar multas e a sair das praias, quando estivessem usando um.

O fato é que o evento, aparentemente banal e cotidiano, de uma mulher desfrutando de um dia na praia, vestida da forma que lhe convinha, transformou-se em questão nacional e, mais que isso, foi considerado um ;ato político;. O ex-presidente francês Sarkozy declarou ser uma provocação à República e aos ideais franceses de liberdade e igualdade. O primeiro-ministro Manuel Valls defendeu a proibição e disse que o traje de banho de corpo inteiro simbolizava a escravização das mulheres. Os grupos feministas se dividiram entre os que viam na proibição uma forma de combater os preconceitos machistas e outros que defendiam o direito de as mulheres se vestirem da maneira que quisessem. A briga, no entanto, parece longe de acabar. Mesmo após o Conselho de Estado francês ter decidido que a proibição do ;burkini; ofende os direitos de liberdade, alguns políticos continuam a afirmar que vão lutar por leis que proíbam a utilização de sinais religiosos externos nos espaços públicos.

Por trás da celeuma, há um discurso aparentemente correto, mas demagógico, de que o que está em jogo é a escravização ou a violação dos direitos das mulheres. A toda vista não é. O que está em jogo é uma França amendrontada com os ataques terroristas, especialmente o último, que deixou 85 mortos em Nice, em julho deste ano. O problema é político e tem a ver com a visibilidade e a presença do islamismo na França e talvez uma deliberada associação entre o terrorismo e o Islã.

Não se pode desconsiderar, por outro lado, haver aí uma questão sutil e não completamente assumida, sobre mulheres, seus corpos e o que vestem. Ao longo da história, a forma como as mulheres cobrem os seus corpos tem sido motivo de polêmica, instrumento de pressão social e objeto de regulação em todos os níveis. Basta lembrar que até pouco tempo atrás não era permitida a entrada de mulheres nos tribunais brasileiros, se estivessem usando calças compridas. Recentemente, casos de assédio sexual em transporte público foram atribuídos aos trajes provocativos usados pelas vítimas. Homens se vestem como querem, sejam os trajes religiosos ou não. Mesmo em grandes empresas se observa por vezes um extenso código de vestimenta para mulheres e quase nenhuma regulação para os homens.

Hoje em dia a França, que se autoproclama um Estado laico, exige que as mulheres se dispam. Países como a Itália ou Espanha, com forte influência do catolicismo, podem entender, como os países árabes, ser necessário que elas escondam os seus corpos. A narrativa, no entanto, seja para um lado ou para outro, é no fundo a mesma. De várias e implícitas formas, a mensagem sub-liminar é de que as mulheres se vestem de forma inadequada, provocativa, e não são aptas a regular os seus próprios trajes.

Ao final, se pensarmos em termos de violação dos direitos das mulheres, a pergunta que fica sem resposta não é exatamente sobre se usar uma burca, um biquini ou burkini é um ato de provocação ao país da ;liberdade, igualdade e fraternidade;. Não é tampouco somente sobre o quanto a religião, ou a ausência dela, impõe regras de vestimenta. É muito mais sobre se o ato de mandar uma mulher retirar sua roupa na praia, seja ela muçulmana ou não, resulta em humilhação pública muito mais vexatória do que permitir que ela se vista do jeito que bem entender.

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