Aceno aos vulneráveis

Aceno aos vulneráveis

Aclamado no Conselho de Segurança para assumir a liderança da organização, António Guterres agradece %u201Ca confiança%u201D e reafirma compromisso com refugiados e vítimas de conflitos

GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 07/10/2016 00:00
 (foto: Jose Manuel Ribeiro/AFP)
(foto: Jose Manuel Ribeiro/AFP)


;Servir aos mais vulneráveis; é a missão assumida pelo ex-primeiro ministro português António Guterres, indicado ontem pelo Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas para suceder o sul-coreano Ban Ki-Moon como secretário-geral da organização, em janeiro de 2017. Embora tenha desapontado a torcida pela nomeação inédita de uma mulher (leia mais abaixo), a escolha foi elogiada por personalidades de peso no cenário mundial. O embaixador da Rússia, Vitaly Churkin, que preside atualmente o CS, exaltou o consenso entre os 15 países-membros do organismo como sinal de unidade.

;Sinto a humildade de quem enfrenta desafios enormes em um mundo perturbado por problemas muito, muito sérios. Mas também a humildade de poder servir aos mais vulneráveis, às vítimas de conflitos e do terrorismo, às vítimas das violações de direitos, da pobreza ou das injustiças do nosso mundo;, disse Guterres na sede do Ministério das Relações Exteriores, em Lisboa, após agradecer a confiança dos membros do CS.

A indicação ainda precisa ser ratificada pelos 193 países que integram a Assembleia-Geral da ONU, passo dado como certo. Depois de ter chefiado por 10 anos o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), até 2015, ele se tornará o primeiro ex-chefe de governo a assumir a Secretaria-Geral.

De Roma, o atual secretário-geral destacou a experiência política do sucessor e seu ;amplo conhecimento dos assuntos mundiais;. ;Eu o conheço muito bem e considero a escolha excelente;, elogiou Ban. Em um carinhoso recado, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, disse estar ;extremamente satisfeito; pela nomeação do ;caro amigo;. Juncker considerou que a escolha de Guterres representa ;um forte sinal de esperança; para superar os desafios globais, e finalizou a mensagem desejando ;tudo de melhor;, seguido pelo desenho de um coração.

Qualidades excepcionais
Para o embaixador de Portugal em Brasília, Jorge Cabral, a indicação representa uma vitória para a diplomacia de seu país e para Guterres, pelas ;excepcionais qualidades;. ;É uma demonstração do reconhecimento, pela comunidade internacional, das capacidades do candidato português. Ele é uma pessoa que esteve à frente de um comissariado muito relevante, especialmente neste momento delicado;, observou, em referência à crise dos refugiados no mundo. ;É uma pessoa com uma rara inteligência, visão e conhecimento das estruturas da ONU. É uma pessoa com grande facilidade de relacionamento humano, um diplomata em sua maneira de estar e de atuar.;

Estevão Martins, historiador e professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), observou que Guterres demonstrou grande habilidade e capacidade de negociação nos anos em que esteve à frente do Acnur. Embora considere ;discurso retórico; a noção de que o consenso na indicação é um sinal de unidade no CS, o estudioso destacou que o português foi aprovado nos ;controles e contrabalanços de influências políticas; feitos para a seleção.

Martins ponderou que a ;sensibilidade social; dos membros do CS favoreceu um indivíduo cujo perfil político é ;muito equilibrado;, e que tem autoridade especial na questão dos refugiados. ;Esse assunto, certamente, não cairá para debaixo do tapete, como poderia acontecer com a pressão dos países;, comentou. ;Guterres não fez muitos pronunciamentos até ser escolhido e só conversou a portas fechadas. Isso significa que tem uma agenda, proposta por ele e aceita, ou composta com os outros países.;


Conselho de Segurança debate Síria



O Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas se reúne hoje, a pedido da Rússia, para discutir as advertências feitas ontem pelo enviado especial da organização à Síria, Staffan de Mistura, sobre o risco de um colapso completo em Aleppo. A segunda cidade do país está sob assédio das forças leais ao regime de Bashar Al-Assad, com apoio aéreo de Moscou, em nome de combater combatentes do braço sírio da rede Al-Qaeda. ;Basicamente, 900 pessoas são a razão pela qual 275 mil habitantes são atacados;, afirmou De Mistura em Genebra, de onde informará hoje o CS, por videoconferência. A Rússia acena com o veto a uma resolução proposta pela França para impor o cessar-fogo em Aleppo.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação