Secretário assassinado em Altamira

Secretário assassinado em Altamira

Luís Alberto Araújo foi morto a tiros na noite de quinta-feira. Titular das pastas de Meio Ambiente e Turismo, ele era alvo de ameaças de morte por encabeçar ações de combate ao desmatamento na cidade do interior do Pará

postado em 15/10/2016 00:00
 (foto: TV Canção Nova/Reprodução
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(foto: TV Canção Nova/Reprodução )

O secretário do Meio Ambiente e Turismo da cidade de Altamira (PA), Luís Alberto Araújo, morto a tiros na noite de quinta-feira (13), estava ameaçado de morte, por conta de suas ações de combate ao desmatamento na região.

A informação foi confirmada à reportagem por Zelma Campos, secretária do Meio Ambiente de Brasil Novo (PA), município vizinho de Altamira. Luís Alberto Araújo, de 54 anos, foi alvejado por vários tiros quando chegava com a família ao condomínio onde morava, no bairro de Buriti, na periferia do município. Os disparos foram dados por dois homens que usavam uma moto. O secretário morreu no local.

Zelma Campos, que foi secretária do Meio Ambiente de Altamira e conhecia Luís Alberto Araújo, disse que ;ele sempre comentava que sofria pressão muito forte, sendo um dos motivos a implantação do Cadastro Ambiental Rural (CAR);. Segundo a secretária, que falava frequentemente com Araújo, ouviu dele que a tensão havia se agravado ultimamente, depois que foram intensificadas ações de um programa contra o desmatamento apoiado pela comunidade internacional.

No fim de 2010, o Ministério do Meio Ambiente firmou parceria com a Delegação da União Europeia para o Brasil, com aporte de 4,9 milhões de euros, em três anos, para o projeto desenvolvido em São Félix do Xingu, município vizinho a Altamira. À época, Araújo era secretário do Meio Ambiente de São Félix e ficou encarregado de executar ações do chamado Pacto Municipal para a Redução do Desmatamento.

O cargo de secretário em Altamira era ocupado por Araujo havia cerca de três anos, tendo atuado, nos últimos meses, na campanha de reeleição do prefeito Domingos Juvenil (PMDB), que saiu vitorioso nas urnas.

;Isso tudo causa muita tensão entre nós. Há uma agenda muito pesada para ser cumprida na área do desmatamento. Aqui na nossa região, o Ministério Público Federal imputa essa missão ao município. Temos a obrigação de cumpri-la, mas não temos todos os instrumentos para isso;, desabafou Zelma.

Segundo a secretária, a morte de Araújo aumentou o grau de tensão entre os secretários dos municípios que compõem o Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável (PDRS) do Xingu: Altamira, Anapu, Brasil Novo, Gurupá, Medicilândia, Pacajá, Placas, Porto de Moz, Pacajá, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu. O plano tem a missão de apoiar políticas públicas na região.

;Temos um grupo que dialoga diariamente. Todos estamos numa apreensão muito forte com a gestão ambiental dessa região. É um momento triste e muito preocupante para nós;, desabafou.

A Polícia Civil investiga o caso. O Instituto Socioambiental (ISA), organização que possui escritório em Altamira, se manifestou declarando que o secretário foi parceiro das causas na região e que atuava no apoio às populações ribeirinhas e em suas reivindicações. ;A sua gestão foi caracterizada pela isenção e a rigidez na aplicação da legislação ambiental. A cidade de Altamira perde um excelente gestor, que lutou pelo cumprimento das condicionantes urbanas da hidrelétrica de Belo Monte;.

De acordo com nota do instituto, ;o secretário esteve à frente na luta pela instalação do saneamento urbano e pelo licenciamento do aterro sanitário da cidade. Ele conseguiu articular a realização de Cadastro Ambiental em áreas tradicionalmente reticentes à intervenção do Estado, fazendo a sua parte na luta contra o desmatamento que aflige o município.;

Memória
Sob o signo da violência


O estado do Pará, marcado por conflitos agrários e por violência contra ambientalistas, registrou em 2005 outro crime violento com repercussão internacional. A irmã Dorothy Stang foi assassinada, com seis tiros, um na cabeça e cinco ao redor do corpo, aos 73 anos de idade, em uma estrada de terra, a 53 quilômetros da sede do município de Anapu. O fazendeiro Vitalmiro Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do crime, foi condenado a 30 anos de prisão.

Há 20 anos, o estado foi palco do que ficou conhecido como o Massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 sem-terra foram mortos por policiais militares no município, no sul do Pará.

Cerca de 1.500 sem-terra haviam fechado a rodovia BR-155 que liga o sul do estado à capital, Belém, em protesto contra a demora na desapropriação de terras. A Polícia Militar foi encarregada de tirá-los do local. O comando da operação estava a cargo do coronel Mário Pantoja, que foi afastado, ficando 30 dias em prisão domiciliar.

O ministro da Agricultura, à época, Andrade Vieira, encarregado da reforma agrária, pediu demissão na mesma noite.Uma semana depois, foi criado o Ministério da Reforma Agrária e indicado Raul Jungmann para o cargo de ministro. O então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, enviou tropas do Exército para a região para conter a escalada de violência.

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