Conexão diplomática

Conexão diplomática

Por Silvio Queiroz silvioqueiroz.df.@dabr.com.br
postado em 15/10/2016 00:00
 (foto: Beto Barata/PR - 5/9/13)
(foto: Beto Barata/PR - 5/9/13)

Negócios muito
além da China




É com satisfação aliviada que o Japão comemora o embarque do presidente Michel Temer com destino a Tóquio, na semana que entra. Nos últimos anos, foram duas tentativas frustradas de fazer contato imediato com Dilma Rousseff. Em 2013, o obstáculo foram as grandes manifestações que, hoje é possível enxergar pelo retrovisor, deram início ao ciclo de turbulências políticas que desencadearam na aprovação do impeachment, consumada no último dia de agosto ; o mês por excelência dos grandes dramas políticos na história política do Brasil.

No ano passado, foram justamente os desdobramentos da crise, projetados para além da disputada reeleição em 2014, que levaram a presidente a cancelar mais uma viagem. A situação foi especialmente constrangedora, já que o anúncio chegou à Embaixada japonesa pela imprensa, justamente no encerramento de um almoço no qual os diplomatas do império oriental se esmeraram em apresentar o roteiro da visita e os objetivos em vista. Dilma retribuiria, na ocasião, a visita do príncipe herdeiro, Akihito, no marco das comemorações dos 120 anos de relações bilaterais.

Desde a primeira frustração, a diplomacia japonesa não fazia segredo sobre as fichas apostadas na incrementação dos tradicionais laços entre os dois países. Ligados por uma história de migração recíproca, Brasil e Japão viveram anos dourados nos anos 1960 e 1970, quando dezenas de indústrias e outras empresas orientais se instalaram com sucesso por aqui. Foi o tempo em que nos acostumamos com marcas de eletrodomésticos que encontraram espaço no mercado brasileiro amparados no binômio confiabilidade e bom preço.

A visita de Temer, acertada com o premiê Shinzo Abe, durante encontro bilateral (foto), à margem da cúpula do G-20, na China, leva o recado de que o país tem horizontes mais amplos, no Pacífico, do que as vastas oportunidades abertas pelo mercado chinês. Como assinalou o chanceler José Serra desde o discurso de posse, a política externa do novo governo dá lugar especial à retomada de laços, principalmente comerciais, com os parceiros tradicionais.

Escala estratégica
Antes do desembarque em Tóquio, o presidente participa no fim de semana da cúpula do Brics, em Goa. O antigo enclave português na Índia encarna em sua história uma vocação comercial firmada desde o tempo das navegações que trouxeram a potência ibérica do Renascimento às nossas costas. Lá, à parte os acertos com os parceiros de um polo privilegiado de inserção global desenhado ainda nos anos Lula, Temer pretende explorar as possibilidades de cooperação com o país anfitrião.

Desde que protagonizaram, com a África do Sul, a formação do Fórum Ibas, assentado nas ambições comuns de três importantes democracias emergentes, Brasil e Índia patinaram na busca por caminhos concretos para a complementaridade entre suas economias. Embora ambos sejam vistos como mercados emergentes de grande porte, ao qual foram incluídos nas últimas décadas legiões de consumidores, os dois países compartilham a insatisfação com os resultados colecionados até agora.

Tijolo com tijolo
As turbulências vividas pelo Brasil desde 2013 são vistas pelos sócios do Brics ; Rússia, Índia, China e África do Sul ; como um dos obstáculos para que o bloco dos emergentes pudesse deslanchar. Foi em 2014, no embalo da Copa do Mundo, que Fortaleza sediou o encontro no qual o quinteto formalizou a criação de um banco de desenvolvimento. Os primeiros projetos de investimento para o país saíram do papel em abril último.

Juntos, os Brics respondem atualmente por quase um quarto do PIB global. As cifras se projetam para o campo minado do comércio mundial, onde o bloco contabiliza atualmente 19% das exportações. Em 2001, antes que a sigla fosse inventada por um consultor de investimentos, os cinco participavam com meros 8%.

Preto no branco
Temer não voltará à China, mas Brasília e Pequim selaram na semana que termina o estabelecimento de um fundo comum de investimentos com capital de US$ 20 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões serão aportados pela nova locomotiva econômica global. Concluído por Temer no mês passado, durante a cúpula do G-20, o acordo tinha sido negociado e encaminhado ainda por Dilma Rousseff, no ano passado. No Brasil, o capital aportado se destinará prioritariamente a projetos de infraestrutura.

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